Quanto Vale?
A premissa de Quanto Vale? (2020), dirigido por Sara Colangelo, não é apenas provocativa, mas quase cruel em sua simplicidade: como determinar o valor de uma vida? Inspirado na história real de Kenneth Feinberg, advogado responsável por liderar o Fundo de Compensação às Vítimas do 11 de Setembro, o filme coloca o espectador frente a uma questão incômoda, mas essencial: o que perdemos quando uma pessoa se vai? É uma reflexão que vai além do pragmatismo jurídico, mergulhando em nuances emocionais, políticas e sociais que tornam essa narrativa tão impactante quanto necessária.
Michael Keaton interpreta Feinberg com uma maestria silenciosa. Desde sua introdução – um advogado confiante, quase arrogante em sua crença na lógica implacável dos números – até sua transformação em um homem que se reconecta com a humanidade, Keaton entrega uma performance sem igual. Feinberg não é pintado como um herói, mas como alguém que aprende a enxergar além das fórmulas matemáticas e gráficos que definem seu trabalho. Seu relacionamento com Camille Biros, vivida por Amy Ryan, é outro ponto forte do filme. Camille serve como um contraponto mais empático e humano a Feinberg, equilibrando a frieza inicial do protagonista com uma sensibilidade que permeia suas interações com as famílias das vítimas.
A direção de Sara Colangelo opta por uma abordagem sóbria e contida, refletindo a seriedade do tema. Em vez de explorar a tragédia do 11 de setembro com grandiosidade visual, Colangelo foca nos efeitos dessa calamidade nas vidas daqueles que ficaram para trás. É uma escolha corajosa e eficaz. A câmera permanece próxima dos personagens, enfatizando o peso emocional das conversas, os silêncios desconfortáveis e os momentos de desespero. Isso cria uma conexão íntima entre o espectador e as histórias contadas na tela, especialmente durante os relatos das vítimas, que são, sem dúvida, os momentos mais poderosos do filme.
Stanley Tucci, no papel de Charles Wolf, brilha como a voz da resistência. Seu personagem, um organizador comunitário que perdeu a esposa nos ataques, se opõe ao pragmatismo de Feinberg com uma visão que coloca as histórias individuais acima dos números. Tucci entrega uma atuação discreta, mas devastadora, capturando a dor e a dignidade de um homem que luta para preservar a memória da esposa enquanto desafia um sistema que tenta reduzir sua perda a uma fórmula matemática. A interação entre Tucci e Keaton é o coração emocional do filme, representando o embate entre razão e emoção, lógica e compaixão.
O roteiro de Max Borenstein é competente ao abordar um tema tão delicado, embora tropece em momentos de exposição excessiva. No início, o filme pode parecer burocrático, enquanto tenta explicar a complexidade do fundo de compensação e as políticas envolvidas. No entanto, uma vez que a narrativa encontra seu ritmo, ela atinge seu objetivo de envolver o espectador, especialmente ao dar espaço para os relatos das famílias das vítimas. Esses momentos são o ponto alto do filme, trazendo à tona histórias humanas que transcendem a matemática fria da compensação financeira.
Ainda assim, em Quanto Vale?, há uma sensação de desequilíbrio narrativo em alguns pontos, onde o foco excessivo nos aspectos técnicos do fundo parece ofuscar o impacto emocional que o filme busca transmitir. Além disso, a direção de Colangelo, embora eficaz na maior parte do tempo, peca por vezes em não explorar mais profundamente as dinâmicas sociais e políticas subjacentes à tragédia. A luta de classes implícita no cálculo das indenizações – onde a vida de um executivo é avaliada em milhões de dólares enquanto a de um trabalhador de baixa renda vale uma fração disso – é um tema fascinante que poderia ter sido mais explorado.
Apesar dessas limitações, o filme deixa sua marca ao destacar o absurdo de tentar quantificar o inquantificável. Um momento particularmente marcante ocorre quando Feinberg, após ouvir os relatos de inúmeras famílias, começa a questionar sua própria abordagem. É uma transformação sutil, mas poderosa, que culmina em sua decisão de ajustar os critérios do fundo para refletir a dignidade das vidas perdidas. Essa evolução do personagem é um testemunho não apenas do trabalho de Keaton, mas também da sensibilidade da direção e do roteiro.
No contexto da filmografia de Sara Colangelo, Quanto Vale? reafirma seu talento em abordar temas humanos complexos com empatia e precisão. Depois do sucesso de A Professora do Jardim de Infância (2017), Colangelo prova novamente sua habilidade em criar dramas que desafiam e emocionam.
Em última análise, Quanto Vale? é mais que um filme sobre o 11 de setembro ou sobre justiça compensatória. É um retrato comovente de como, diante da tragédia, somos forçados a confrontar nossa própria humanidade. Ao destacar histórias individuais em um mar de números, o filme nos lembra que cada vida é única e insubstituível. É uma lição que ressoa muito além da tela, convidando-nos a refletir sobre como valorizamos uns aos outros ou, talvez, como poderíamos fazer isso melhor.
Quanto Vale? (Worth, 2020 / EUA)
Direção: Sara Colangelo
Roteiro: Max Borenstein
Com: Amy Ryan, Michael Keaton, Stanley Tucci, Tate Donovan, E.R. Ruiz, Laura Benanti, Liz Cameron, Shunori Ramanathan, Talia Balsam, Victor Slezak, Zuzanna Szadkowski
Duração: 118 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Quanto Vale?
2025-01-10T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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