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Johnny & June
Rever Johnny & June (Walk the Line) quase duas décadas após seu lançamento é como escutar uma velha canção de Johnny Cash em vinil: há rachaduras, chiados, pausas inesperadas… mas também há alma, intensidade e uma entrega crua que encanta. Dirigido por James Mangold, um cineasta que desde o início da carreira demonstrou fascínio por personagens à margem, o filme é, acima de tudo, um mergulho no conflito interno de um homem dilacerado entre o peso do passado e o redentor e o doloroso presente. Um filme biográfico, sim. Mas também uma história de vício, redenção e amor, no melhor e pior sentido possível.
Baseado nos livros autobiográficos de Johnny Cash, Johnny & June (Walk the Line) opta por retratar o cantor em sua juventude até o início do relacionamento com June Carter, condensando décadas de conflitos pessoais e musicais em pouco mais de duas horas. O recorte temporal é certeiro: ao evitar abarcar toda a trajetória de Cash, Mangold concentra o foco nos anos formativos e turbulentos do artista, justamente onde a ferida ainda sangra.
Joaquin Phoenix assume o papel de Johnny Cash com uma entrega que impressiona menos pela mimetização, embora ele acerte até o timbre grave da voz, e mais pela maneira como traduz a dor silenciosa do personagem. Phoenix compreende que Cash era um homem dividido entre o sagrado e o profano: filho de um pai austero que nunca superou a perda do primogênito, veterano de guerra e aspirante a artista preso a empregos banais, ele é apresentado no filme como um homem em constante colisão com suas próprias falhas. Phoenix não interpreta Cash como um ídolo; ele o humaniza como alguém que erra, que se autodestrói, que afasta todos à sua volta e que, mesmo assim, ainda encontra alguma beleza no caos.
Reese Witherspoon, por sua vez, brilha de maneira mais contida. Sua June Carter é solar, espirituosa, irônica, mas também firme e comedida. A atriz equilibra a leveza e a força da personagem com a precisão de quem compreende o papel narrativo que ela ocupa: não como um “anjo salvador”, como tantos roteiros sobre homens autodestrutivos tentam pintar suas mulheres, mas como uma mulher real que também tem cicatrizes, que também teme, que também hesita. O Oscar de Melhor Atriz conquistado por Witherspoon não é apenas merecido, é um raro exemplo de reconhecimento justo em uma época dominada por clichês.
A direção de James Mangold é segura, ainda que não especialmente inventiva. Ele aposta em uma mise-en-scène clássica, com movimentos de câmera discretos e uma montagem linear que pouco ousa. É uma escolha que pode ser vista tanto como virtude quanto como limitação: por um lado, evita o exibicionismo técnico e permite que as atuações respirem; por outro, falta à direção a ousadia que o personagem principal pede. Cash era provocador, marginal, contraditório — e o filme, em sua forma, muitas vezes se contenta em ser um drama biográfico “bem comportado”.
Mas há momentos em que tudo se encaixa. A sequência em que Johnny grava “Folsom Prison Blues” pela primeira vez é o exemplo mais claro de quando o filme encontra sua pulsação. Phoenix, no papel, extrai a música com raiva e desespero, como se cantar fosse a única saída para não implodir. O engenheiro de som hesita, os músicos se entreolham, e Mangold captura tudo com uma câmera estática, quase cúmplice. Ali, entendemos porque Cash se tornou lenda: não por sua técnica, mas porque sua música parecia vir de um lugar que a maioria de nós prefere não visitar.
Outro momento emblemático é o pedido de casamento em pleno palco, diante de uma plateia. Sim, é um momento feito para arrancar suspiros. Mas também é o ponto de clímax de um homem que, pela primeira vez, decide parar de fugir. E é também quando o filme corre o risco de escorregar para o melodrama — o que poderia soar como um ponto fraco, mas que, honestamente, parece coerente com a jornada emocional que Johnny & June constrói.
Entre os méritos e as limitações, há algo inegável: Johnny & June é um filme que, mesmo com seu verniz de cinebiografia tradicional, encontra relevância no modo como retrata a arte como último refúgio para o trauma. O vício em anfetaminas, as turnês exaustivas, o peso da infância negligenciada: tudo isso pulsa em segundo plano, mas nunca desaparece. Ao contrário de outras cinebiografias musicais que glorificam o estrelato, este filme é mais sobre a dor do que sobre o sucesso. A fama aqui é retratada como ruído de fundo, nunca como objetivo.
Há, no entanto, uma sensação de que Mangold optou por uma narrativa que fosse palatável ao grande público. Em alguns momentos, o roteiro suaviza os conflitos, simplifica os dilemas e fecha arcos com mais facilidade do que a vida real permitiria. A complexidade do relacionamento de Johnny com sua primeira esposa, Vivian, por exemplo, é reduzida a conflitos superficiais. A ambiguidade moral que deveria permear o protagonista acaba diluída em cenas que romantizam demais o papel de June em sua redenção.
Mesmo assim, o filme se sustenta por seu coração pulsante: a música. As canções, todas interpretadas pelos próprios atores, são um trunfo narrativo. Elas não são apenas trilha sonora, são veículos de expressão emocional. Quando Phoenix canta “Ring of Fire”, é como se estivéssemos ouvindo sua alma em combustão. Poucas cinebiografias conseguiram integrar tão organicamente o elemento musical à estrutura dramática quanto esta.
Johnny & June é, enfim, um filme de alma rachada: imperfeito, sim, mas honesto em seu esforço de representar um homem cujas falhas não apagaram sua grandeza artística. Talvez essa seja sua maior qualidade: permitir que vejamos Johnny Cash não apenas como ícone, mas como homem. E, como toda grande música country, nos lembrar que a dor, quando cantada com verdade, pode ser também um ato de sobrevivência.
Johnny & June (Walk the Line, 2006 / Estados Unidos)
Direção: James Mangold
Roteiro: James Mangold, Gill Dennis
Com: Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon, Ginnifer Goodwin, Robert Patrick, Dallas Roberts
Duração: 136 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Johnny & June
2025-06-09T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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