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Simplesmente Acontece
Simplesmente Acontece
Quando penso em Simplesmente Acontece (Love, Rosie, 2014), dirigido pelo pouco conhecido Christian Ditter, a primeira palavra que me vem à mente é: desencontro. Não apenas pela trama — que é inteira costurada em cima da falta de timing entre dois amigos que parecem destinados a ficarem juntos, mas por uma desconexão maior, mais incômoda, entre o que o filme tenta ser e o que ele de fato entrega. O longa quer desesperadamente nos emocionar com o passar dos anos, as perdas, os encontros, os erros, os acasos da vida, mas acaba escorregando em sua própria tentativa de parecer profundo. E no entanto, por mais falhas que tenha, há algo no coração desse filme que pulsa com sinceridade. Ainda que timidamente e tropeçando nos clichês do gênero.
Baseado no livro Where Rainbows End, de Cecelia Ahern (a mesma autora de P.S. Eu Te Amo), Simplesmente Acontece gira em torno da amizade, e potencial romance, entre Rosie Dunne (Lily Collins) e Alex Stewart (Sam Claflin). Desde a infância, eles compartilham uma conexão visceral, quase magnética, que o tempo, a distância e as circunstâncias da vida só parecem intensificar. O roteiro, assinado por Juliette Towhidi, tenta traduzir essa relação ao longo de mais de uma década, acompanhando os dois personagens enquanto tentam e repetidamente falham em estarem juntos no momento certo.
O problema é que, para um filme que se propõe a ser sobre emoções acumuladas ao longo dos anos, há algo de superficial em sua execução. A narrativa avança no tempo com saltos bruscos e pouco naturais, como se estivéssemos folheando um álbum de fotos e não vivenciando, de fato, os momentos. Isso enfraquece o impacto dramático de acontecimentos importantes: uma gravidez não planejada, uma mudança de país, um casamento que não dá certo. Tudo parece acontecer rápido demais, como se o próprio filme tivesse pressa em chegar ao final feliz que o público já adivinhava nos primeiros 10 minutos.
Lily Collins, no entanto, entrega uma Rosie que merece atenção. Há uma vulnerabilidade honesta em seu olhar, principalmente nas cenas em que precisa lidar com a frustração de ter sua vida virada de cabeça para baixo por conta de uma gravidez adolescente. Ela é uma das poucas coisas que parecem autênticas em um filme que, por vezes, mais parece uma colagem de outros romances do que uma obra com identidade própria. Já Sam Claflin, embora carismático, acaba refém de um personagem que pouco evolui. Alex é sempre o bonitão compreensivo, inteligente, gentil, mas raramente nos deixa ver qualquer sombra, qualquer fissura que o torne mais humano.
Christian Ditter parece apostar na estética segura e polida de uma comédia romântica convencional. A direção de arte é genérica, e a fotografia se mantém dentro da paleta pastel que costuma marcar o gênero, sem nenhuma ousadia. As locações (Dublin, Londres e Boston) são mais pano de fundo do que parte viva da narrativa. Nenhuma dessas cidades parece impactar os personagens de forma significativa. São meros cenários, não territórios emocionais.
Há, no entanto, um momento que talvez resuma o que o filme tem de mais verdadeiro: uma cena em que Rosie, já adulta, encontra uma antiga carta nunca entregue — uma carta que poderia ter mudado completamente o rumo de sua vida. É um instante silencioso, íntimo, em que o peso do tempo perdido se faz presente. Collins, mais uma vez, carrega a cena com sutileza. É ali que sentimos, talvez pela única vez, a tragédia real dos desencontros que a vida nos impõe e que tantas vezes não têm conserto. Pena que o roteiro, em seguida, trate logo de varrer isso para debaixo do tapete com uma virada redentora que soa mais conveniente do que catártica.
E esse talvez seja o grande dilema de Simplesmente Acontece. Ele quer ser sobre a vida como ela é — caótica, imprevisível, cheia de pequenos fracassos e de amores que só amadurecem com o tempo —, mas não consegue abandonar a estrutura de conto de fadas moderno. Tenta nos fazer acreditar que tudo valeu a pena porque, no fim, o destino se encarregará de nos conduzir ao que é certo. Só que a vida real raramente funciona assim, e os melhores filmes românticos — Antes do Amanhecer, Namorados para sempre, 500 Dias com Ela — sabem disso. Sabem que a beleza do amor está também na imperfeição, na falha, no que não dá certo.
O filme se propõe a ser um retrato da amizade verdadeira que sobrevive às intempéries da vida, mas cai na armadilha da previsibilidade. As reviravoltas são fracas, os personagens coadjuvantes mal desenvolvidos, como o pai de Rosie, por exemplo, e a montagem acelera tanto os acontecimentos que mal temos tempo de absorvê-los. Ainda assim, há momentos de doçura, especialmente quando Rosie interage com sua filha. Essas cenas são mais genuínas do que qualquer diálogo romântico entre os protagonistas.
Para quem busca uma comédia romântica leve, com momentos doces e uma história de amor adiada ao longo do tempo, Simplesmente Acontece pode funcionar como passatempo. Mas para aqueles que esperam algo que realmente investigue a complexidade dos sentimentos e dos relacionamentos de forma honesta, o filme ficará aquém. Falta coragem à direção. Falta risco. Falta aceitar que a vida, mesmo nos filmes, não precisa seguir sempre o caminho mais fácil. É difícil não desejar que Simplesmente Acontece tivesse ousado mais. Que tivesse deixado o amor acontecer de forma menos previsível e mais verdadeira.
Simplesmente Acontece (Love, Rosie, 2015 / Reino Unido, Alemanha)
Direção: Christian Ditter
Roteiro: Juliette Towhidi
Com: Lily Collins, Sam Claflin, Christian Cooke, Tamsin Egerton, Suki Waterhouse, Jaime Winstone, Art Parkinson, Lily Laight
Duração: 102 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Simplesmente Acontece
2025-06-11T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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