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Os Três Amigos!
Os Três Amigos!
É curioso como Os Três Amigos! (Three Amigos!, 1986) chegou às telas com a promessa de uma comédia explosiva, mas termina parecendo uma fogueira morna: o material está lá, mas a loucura necessária para incendiar o gênero faroeste-cômico raramente aparece. A premissa de três atores de comédias mudas, Lucky (Steve Martin), Dusty (Chevy Chase) e Ned (Martin Short), confundidos com heróis de verdade, tem um potencial de ouro. E, em momentos pontuais, como quando cantam ao redor da fogueira e até os cavalos participam do coro, vislumbramos a faísca que poderia incendiar o enredo. Ainda assim, o filme se mantém hesitante, inteligente demais, confiante demais, como se tivesse medo de se entregar ao delírio.
Steve Martin, no papel de Lucky, exibe aquele humor contido, irônico, quase observacional. Bastante distinto do frenesi de Ned, de Martin Short. Mas essa alternância de energia fragmenta a coesão da vibração habitual de uma comédia farsesca, minando a intensidade necessária. Chevy Chase está, de certa forma, deslocado: seu Dusty surge murmurando poucas reações e desaparecendo no pano de fundo. É palpável a subutilização do elenco.
A direção de John Landis, que fez de Os Embalos de Sábado à Noite um verdadeiro ícone, demonstra precisão técnica, mas peca pela falta de comicidade. As piadas acontecem com ritmo solto, repousado, quase “leve demais” para o tipo de humor que se desejaria agressivo e surtado. Faltou submeter os personagens ao caos para forçá-los a responder com algo além do sarcasmo leve ou da reação de quem acabou de acordar.
A cena da serenata junto à fogueira, em que silêncio e comédia se fundem de modo quase poético, contrasta radicalmente com a sequência seguinte, em que os bandidos atiram com balas de verdade. É nesse choque que o filme deveria pulsar. E pulsa por instantes. Mas quando acerta, se distrai. O arco dos personagens, que invade o forte dos vilões sem credibilidade emocional, atravessa um descompasso narrativo: os atores viram inesperadamente heróis sem desenvolver uma coerência da aprendizagem.
Há, sim, momentos de mérito: o trio encarna com destreza o espírito atrapalhado dos três grandes nomes do Saturday Night Live: a ingenuidade escancarada de Short, o sarcasmo seco de Martin e a presença reativa de Chase. A comédia reside justamente nessa teatralidade. Eles são atores interpretando atores interpretando heróis, porém o filme esquece de aprofundar os laços entre eles, entregando um grupo funcional, mas sem uma química explosiva. Algo que Steve Martin e Martin Short entregam habilidosamente na recente série Only Murders in the Building.
A vilania de El Guapo (Alfonso Arau), caricatura de bandido clássico, jamais ganha a tensão necessária para equilibrar o tom entre séria ameaça e gozação leve. O vilarejo de Santo Poco é simpático, mas falta humanidade nos figurantes, falta textura nas reações.
Positivo é que o filme evita a metalinguagem amarga: ele não se preocupa em dar lições sobre o gênero western, nem transforma o trio em críticos de si mesmos. O texto prefere navegar livremente numa fábula sobre identidade, sobre quem somos quando desempenhamos um papel, e sobre lendas que se moldam na mente de quem as assiste. Essa ingenuidade conserva o frescor de uma comédia dos anos 80, ainda que não necessariamente traga as gargalhadas prometidas.
Por fim, Os Três Amigos! é um exercício curioso de contradições: tecnicamente bem-feito, ambicioso, bem intencionado, mas narrativamente tímido. Sua maior força está nas ideias de atores fantasiados, narrativa por equívocos e choque entre fantasia e realidade, mas a execução se contenta em passear por essas premissas sem mergulhar de vez. Ainda que insuficiente como comédia farsesca, rende timidamente pelo carisma dos três protagonistas e pela singeleza de alguns momentos. Um filme que não se dá ao direito de errar feio, mas também nunca se arrisca a acertar bonito.
Os Três Amigos! (Three Amigos!, 1986 / Estados Unidos)
Direção: John Landis
Roteiro: Steve Martin, Lorne Michaels, Randy Newman
Com: Steve Martin, Chevy Chase, Martin Short, Alfonso Arau, Patrice Martinez
Duração: 115 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Os Três Amigos!
2025-07-30T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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