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Timbuktu
Timbuktu
Assistindo a Timbuktu (2014), de Abderrahmane Sissako, encontrei um filme que, logo na abertura, revela sua dicotomia: a beleza quase hipnótica do Saara e a violência impessoal imposta pelos jihadistas. A sequência da gazela perseguida, uma alegoria natural e cruel, estabelece de imediato o tom do filme: beleza usada como truque narrativo para revelar a crueldade humana.
A direção de Sissako é de uma sensibilidade rara. Ele opta por planos amplos, silenciosos, como se quisesse obrigar o espectador a confrontar o deserto e seus significados. A fotografia de Sofiane El Fani alcança uma poesia visual rara: tons terrosos, luzes de entardecer e contrastes que carregam o peso da dominação ideológica. Essa estética até conforta, mas é uma rebeldia sutil que serve de contraponto ao que ali acontece.
As atuações são contidas, mas não menos potentes. Ibrahim Ahmed constrói Kidane com olhos que transmitem o fardo do homem comum. Ele é nômade, ama a paz, mas não é ingênuo. Toulou Kiki, como Satima, encarna uma dignidade resiliente, especialmente na cena em que se recusa a usar luvas para vender peixe, desafiando a arbitrariedade. A filha, Toya, é a personificação da esperança protegida por uma brutalidade que quer apagá-la. O momento da “partida de futebol sem bola” é emblemático: uma dança de resistência, graciosa, sem gritos, mas elucidativa. A coreografia silenciosa denuncia mais do que muitos diálogos inflamados.
Há um equilíbrio sutil entre compaixão e crítica. Sissako evita caricaturas: os jihadistas são vistos como homens fracos, contraditórios, que fumam, trocam brincadeiras esportivas. Humanos, mas destruidores. Ao mostrar esse olhar humano, ele não desculpa, mas aprofunda a compreensão do que leva ao fanatismo. O olhar moral não é simplista.
Entretanto, o filme tem seus limites. A narrativa por vinhetas, ainda que poética, às vezes parece diluir a tensão principal. A jornada de Kidane, especialmente o conflito pós-morte do pescador, é poderosa, mas os episódios menores às vezes rompem o ritmo e afastam da linha narrativa principal. A montagem privilegia a frieza documental, em detrimento de mergulhos emocionais mais intensos. Isso pode alienar quem busca envolvimento dramático direto.
O clímax, uma tomada longa e serena no lago, enquanto Kidane encara seu destino, é exemplar. Há um silêncio quase didático que atinge o centro do filme: o conflito entre justiça humana e justiça imposta. Kidane aceita seu fim com serenidade, e o espectador se vê confrontado com a ideia de perdão, mas não de esquecimento.
No fim, Timbuktu é um filme de claras conquistas: estética refinada, tensão moral e sensibilidade cultural. Ele fala do poder que o cinema tem de encantar e incomodar. Com pluralidade de vozes: o cameraman, o silêncio, a escolha de mostrar apedrejamentos em plano distante, quase documental. Tudo conspira para uma obra madura, pensada, reflexiva. E ainda assim, sóbria; sem o impulso de condenar com histeria, ao menos racionalmente.
Se há um elogio com fundamento, ele está na coragem de mesclar a beleza com a brutalidade, o humano com o anti‑humano. Sissako constrói um contraponto entre compaixão e rigor religioso, usando o silêncio e o espaço como armas. Mas o filme também pede paciência e nem sempre recompensa com envolvimento emocional intenso. Ainda assim, é uma obra essencial para quem quer entender como o cinema pode funcionar como resistência poética.
Timbuktu (Timbuktu, 2014 / França, Mauritânia)
Direção: Abderrahmane Sissako
Roteiro: Abderrahmane Sissako, Kessen Tall
Com: Ibrahim Ahmed dit Pino, Toulou Kiki, Abel Jafri, Fatoumata Diawara, Hichem Yacoubi
Duração: 97 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Timbuktu
2025-08-01T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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