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As Bicicletas de Belleville
As Bicicletas de Belleville
Revisitar As Bicicletas de Belleville é como redescobrir um portal onde a animação tradicional se une à ironia sofisticada, pintada em traços retorcidos e movimentos que desafiam a física. Um mundo onde o grotesco e o poético se abraçam de forma inesquecível. Sylvain Chomet assina uma obra que, aberta a partir do silêncio absoluto, constrói suas vozes na linguagem pura do corpo, do gesto e do ritmo. Algo que o cinema já não faz tão corajosamente hoje.
Logo nos primeiros minutos, somos apresentados a um cotidiano íntimo e quase banal: uma avó determinada, um menino aspirante a ciclista e um cachorro obeso com fobia de trens. É nesse silêncio que nasce o vínculo emocional. Cada passo, pedalada ou latido carrega mais sinceridade do que qualquer diálogo. Mas Chomet nos testa, sim: essa quase ausência de fala exige paciência, e talvez afaste quem busca ritmo acelerado, mas essa lentidão inicial é o alicerce de nossa empatia.
E então a narrativa dispara: o ciclista é sequestrado no Tour de France, e começa a jornada transatlântica para a enigmática Belleville: essa metrópole de expressão caricata e glamour caótico, povoada por caricaturas do consumo. Chomet expõe a América culinária, o capitalismo desenfreado, tudo sublinhado pela caricatura física e moral dos habitantes. Eles são grotescos, glutões, criaturas de plástico. E o traço expressionista torna o desconforto visual parte da mensagem.
Ao chegar em Belleville, a avó e Bruno encontram as “Triplets”, ex‑estrelas de music‑hall que, entre sapateados roubados e sapos com dinamite, formalizam o resgate com um humor inigualável. A cena do restaurante, onde as irmãs fazem uma performance surreal com eletrodomésticos como instrumentos, é um dos grandes momentos que reúne inventividade bizarra e melancolia social. Tudo ali ganha peso, sem precisar de legendas.
Logo, esse humor encontra contraste com a dureza cínica de Belleville, e Chomet traça um dueto entre caricatura física e crítica feroz: a ostentação da pasmaceira urbana, enquanto a avó se recusa a desistir e reconquista o neto com disciplina, perseverança e amor. Essa tensão entre rigidez e loucura é o coração do filme. Frenesi visual que só parece tão crível porque sua mão é precisa.
Em termos técnicos, a animação bidimensional revela o traço da mão, o suor do cinema artesanal, um sopro de humanidade num mar de polígonos. A paleta, ora sépia nostálgica da casa, ora verde metálico de uma cidade industrializada e eterna, reforça a ideia de velhice, consumo e desgaste, de uma Belleville que já nasceu decadente. A trilha sonora, com a arrebatadora “Belleville Rendez‑vous”, ecoa jazz antigo, circo e melancolia, conferindo corpo emocional ao que ali falha em palavras.
Mas o filme também tem pontos a serem questionados: o ritmo lento do começo requer disposição e pode afastar quem não está disposto a mergulhar na construção narrativa. E o humor escatológico, entre fezes e violência caricata, por vezes espanta o espectador menos preparado. Embora visualmente deslumbrante, a trama central de resgate familiar não tem grandes surpresas narrativas. O impacto está nos efeitos estéticos, não na originalidade do enredo.
Mesmo assim, a experiência permanece poderosa. É um convite ao silêncio, à observação, ao riso contido e ao desconforto provocado. O momento em que a avó força Bruno a pedalar para encher o pneu amassado naquela engenhoca monstruosa resume tudo: união de corpo e máquina, amor e crueldade, absurdo e engenho, uma síntese da alma de Chomet.
As Bicicletas de Belleville não é um filme leve. Tece um comentário ácido, uma fábula visual sobre consumo, envelhecimento, obstinação e humor com sabor amargo. Uma animação para adultos atentos, que ainda creem no poder dos traços feitos à mão e na força do silêncio para falar infinitamente mais.
As Bicicletas de Belleville (Les Triplettes de Belleville, 2003 / França, Bélgica, Canadá, Reino Unido)
Direção: Sylvain Chomet
Roteiro: Sylvain Chomet
Com: Béatrice Bonifassi, Lina Boudreault, Michèle Caucheteux, Jean‑Claude Donda, Michel Robin
Duração: 78 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
As Bicicletas de Belleville
2025-08-25T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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