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Rafiki
Rafiki
Rafiki me envolve como uma lufada de ar fresco. Uma história de amor adolescente que rompe o silêncio com coragem e delicadeza. Desde os primeiros minutos, quando a câmera passeia pelas ruas de Nairobi pintadas de rosa e verde, entendo que Wanuri Kahiu quer mais do que contar uma história: ela quer celebrar o afrobubblegum: um comportamento artístico que transborda cor, suavidade e esperança africanas. E, no centro dela, está a química natural e pura entre Samantha Mugatsia (Kena) e Sheila Munyiva (Ziki), cujas interpretações deslizam entre o tímido e o ousado, o cotidiano e o transcendente.
Kena, com sua postura mais masculina, boné virado ao contrário, funciona quase como contraponto emocional. Contida, observadora, uma alma em formação. Ziki, em contraste, vibra com tranças coloridas, entusiasmo crescente e uma sinceridade que incomoda, liberta e atrai. Esse choque de personalidades constrói uma beleza de harmonia, como se cada cena deles reunidos fosse um pequeno risco de exposição, inclusive emocional, diante de uma sociedade que contempla, com olhos censores, essa junção de sentimentos.
O cenário da van abandonada é um personagem silencioso, quase sagrado. Ali dentro, frente a frente entre almofadas e velas, Kena e Ziki encontram seu refúgio. Um espaço secreto e simples, iluminado pelas cores que definem o filme. Essa homenagem quase lírica ao primeiro amor adolescente encontra tensão quando um membro da comunidade, com ares de fofoqueiro, revela aquilo que é proibido. A transição da inocência para o risco, tão bem capturada por Kahiu, provoca uma fratura inevitável entre as garotas.
Quando a violência irrompe, enquadrada de forma intimista, parcial, urgente, é o ponto em que Rafiki se distancia de muitos relatos gays: o sofrimento não apaga a esperança. Mesmo com o banimento impiedoso do filme em seu país, por “promover lesbianismo”, Kahiu se recusa em transformar esse amor em penitência. A resolução que espreita no final devolve força à narrativa e reafirma que o amor, mesmo ferido, pode ser semente de liberdade.
As escolhas formais reforçam essa comunicação emocional. A paleta de cores é parte do roteiro: rosas suaves, verdes explosivos, luzes de neon tão intensas quanto os encontros das personagens. A câmera de Christopher Wessels se aproxima nos momentos íntimos, joga raios de sol no rosto da Ziki como se ela fosse o calor que ilumina o coração de Kena. E, mesmo em cenas mais duras, o enquadramento fica restrito. Um fragmento que espelha a repressão que permeia a história.
Mas a produção tem seus pormenores. A estrutura narrativa acaba por seguir trilhas familiares da filmografia queer: tensão, descoberta, rejeição e silêncio, sem grandes subversões desse arco clássico. Alguns personagens coadjuvantes ficam bidimensionais, como o rival Blacksta ou a fofoqueira da comunidade. São meros estereótipos que servem de oposição forte às protagonistas.
Ainda assim, o mérito maior de Rafiki está no equilíbrio que encontra entre leveza e tensão, entre romance adolescente e denúncia social. Ao recusar a narrativa punitiva, ao deixar espaço para a imaginação de um final possível, Kahiu afirma uma liberdade narrativa que se estende além da tela. Como obra, é visualmente sedutora e politicamente urgente; como experiência, é um convite sincero ao afeto em tempos preservados por silêncios e censuras.
Rafiki (Rafiki, 2018 / Quênia)
Direção: Wanuri Kahiu
Roteiro: Wanuri Kahiu, Jenna Cato Bass
Com: Samantha Mugatsia, Sheila Munyiva, Neville Misati, Nice Githinji, Charlie Karumi, Jimmy Gathu
Duração: 82 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Rafiki
2025-08-18T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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