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Menino Maluquinho: O Filme
Menino Maluquinho: O Filme
Menino Maluquinho: O Filme (1995) me comove pela forma como captura, com graça e sensibilidade, aquilo que falta em tantos filmes infantis: uma infância não apenas vivida, mas ressuscitada em sua intensidade, naquelas ruas coloridas de Minas e no riso que não precisa de efeitos. A direção de Helvécio Ratton resgata um tempo que parece ter existido só na memória: o Menino Maluquinho não é só um personagem. Ele é pura impulsividade, beleza da desordem, correndo de rolimã, subindo em árvores e roubando manga do vizinho. Tudo isso exibido com espontaneidade absoluta, como se estivéssemos com ele na rua de terra batida. A ambientação em Belo Horizonte e Tiradentes dá um ar artesanal, tão genuíno quanto a infância que muitos de nós tivemos. A paleta de cores do filme, as fachadas vivas, o ônibus escolar amarelo. Essa brasilidade, tão concreta, evoca em quem assiste a sensação de pertencimento, especialmente em quem carrega lembranças parecidas.
Samuel Costa, com menos de dez anos na época, está mais do que atuando: ele incorpora o Menino Maluquinho. A panela na cabeça, o paletó azul, o riso fácil e gestos desajeitados não são desempenho técnico, mas evidência de que ali, na tela, está alguém que transcende a encenação e encarna o mito infantil. Ao seu lado, veteranos como Patrícia Pillar, Roberto Bomtempo e o inesquecível Vô Passarinho (Luiz Carlos Arutin), em sua última atuação, ancoram o roteiro com uma leveza cheia de afeto. O figurino, a maquiagem, os cenários — tudo colabora para tornar palpável aquela o universo do livro.
É perceptível, porém, que Ratton evita aprofundar dramas como a separação dos pais ou a morte do avô. O aflito Vô Passarinho se vai com o mesmo ritmo com que vem, deixando rastros mas sem pesar demais o tom. E o filme se mantém delicado em sua coerência: não se propõe a dissecar emoções, e sim a celebrá-las. Há sutilezas, como os sonhos fantásticos do relógio gigante ou a doce cena da Fada do Tempo, pequenas preciosidades que enchem os olhos sem exigir explicações.
Em contrapartida, lamento que o filme não provoque debates contemporâneos. A presença de personagens negros, por exemplo, surge como detalhe de cenário, sem dar profundidade à sua representatividade. E ainda hoje é difícil engolir certos trejeitos culturais datados que permanecem inocentes, mas precisam ser vistos com um olhar crítico.
Ainda assim, Menino Maluquinho: O Filme é uma obra que nos convoca a lembrar quem fomos, ou quem gostaríamos de ter sido, e faz isso sem concessões ao consumo, às modinhas tecnológicas, mas com todas as delícias da imaginação. Um cinema infantil que fala com emoção tanto para as crianças quanto para os adultos que ainda se lembram de como é brincar de verdade.
Menino Maluquinho: O Filme (1995 / Brasil)
Direção: Helvécio Ratton
Roteiro: Helvécio Ratton, Alcione Araújo (com participação de Ziraldo)
Com: Samuel Costa, Patrícia Pillar, Roberto Bomtempo, Luiz Carlos Arutin, Edyr de Castro, Cristina Castro, João Romeu Filho, Camila Paes, Samuel Brandão, Hilda Rebello
Duração: 90 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Menino Maluquinho: O Filme
2025-09-05T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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