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O Incrível Exército de Brancaleone
O Incrível Exército de Brancaleone
Taí um filme que sempre quis revisitar aqui. Lembro que, ao assistir O Incrível Exército de Brancaleone pela primeira vez, na minha adolescência, já pensava que, mesmo sendo uma comédia farsesca, seria o mais próximo do realismo da Idade Média que iríamos ver no cinema, muito longe da glamourização do cavaleiro errante em seu cavalo branco. E, ainda hoje, me impressiona como Mario Monicelli consegue equilibrar humor sujo e crítica social com sutileza. O riso nasce da verossimilhança visual, dos figurinos lamacentos e de uma fisicalidade austera em que o cômico brota do desgaste real dos personagens e do humor que não pede licença.
Brancaleone, esse herói despido de grandiosidade, é uma desconstrução contundente da figura clássica. Ele não cavalgou para a glória, mas para o ridículo pomposo, e ao seu redor, o séquito de marginalizados encarna cada distorção desse universo feudal com cores rasgadas e linguagem exagerada: um verdadeiro Dom Quixote louco andando por estradas corrompidas por peste, fome e guerras inúteis.
Mas o que me encanta mesmo é que essa comédia medieval não se contenta com o escracho fácil. Ela é uma sátira histórica refinada e atemporal, onde a arquitetura visual entrega com precisão o desconforto da Baixa Idade Média. Cada grota de barro, cada peruca mal posta, é parte de um humor irônico que trafega entre o absurdo e o comentário social indireto, a ponto de se consolidar como um épico realista que provoca risos e reflexões.
No filme, Brancaleone é seguido não por inspiração, mas pela promessa no futuro fácil, como uma piada trágica. E a ironia mata mais que as espadas, porque expõe que liderar um exército de fracassados imbuídos de ideais irreais é mais heróico que qualquer bandeira erguida em nome de uma causa e mais absurdo também. Uma dura lição sobre liderança e esperança.
Vittorio Gassman protagoniza essa história desastrosa, no ótimo sentido, com uma presença que navega entre a pomposidade e o patético. Ele não decorou um papel, ele o encarnou. Seu Brancaleone da Nórcia acredita ser um cavaleiro caído que tem sua própria importância, e é justamente aí que reside sua humanidade e sua comicidade afiada.
Contudo, nem tudo converge com perfeição. Os coadjuvantes, tão simbólicos quanto caricatos, às vezes parecem meros bonecos à espera de piada pronta, e não personagens com profundidade. Ainda assim, essa limitação acaba se convertendo em uma nova força narrativa: o verdadeiro personagem coletivo é o exército que falha junto, uma massa que derrota o herói sem sequer perceber.
No fim, com seu humor corrosivo, anatomia estética ferida e crítica social embutida, o filme permanece um monumento da comédia italiana, gerando inclusive a continuação Brancaleone nas Cruzadas (1970). Tão atual em sua denúncia da glória vazia quanto em sua inteligência cômica, capaz de nos fazer rir enquanto lembramos do que realmente importa: parece que, no íntimo, a humanidade nunca muda.
O Incrível Exército de Brancaleone (L’armata Brancaleone, 1966 / Itália)
Direção: Mario Monicelli
Roteiro: Mario Monicelli, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli
Com: Vittorio Gassman, Catherine Spaak, Folco Lulli, Gian Maria Volonté, Maria Grazia Buccella, Carlo Pisacane, Ugo Fangareggi, Gianluigi Crescenzi, Alfio Caltabiano
Duração: 120 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Incrível Exército de Brancaleone
2025-09-08T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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