Home
Alfio Caltabiano
Carlo Pisacane
Catherine Spaak
cinema europeu
comedia
critica
Folco Lulli
Gian Maria Volonté
Gianluigi Crescenzi
Maria Grazia Buccella
Mario Monicelli
Ugo Fangareggi
Vittorio Gassman
O Incrível Exército de Brancaleone
O Incrível Exército de Brancaleone
Taí um filme que sempre quis revisitar aqui. Lembro que, ao assistir O Incrível Exército de Brancaleone pela primeira vez, na minha adolescência, já pensava que, mesmo sendo uma comédia farsesca, seria o mais próximo do realismo da Idade Média que iríamos ver no cinema, muito longe da glamourização do cavaleiro errante em seu cavalo branco. E, ainda hoje, me impressiona como Mario Monicelli consegue equilibrar humor sujo e crítica social com sutileza. O riso nasce da verossimilhança visual, dos figurinos lamacentos e de uma fisicalidade austera em que o cômico brota do desgaste real dos personagens e do humor que não pede licença.
Brancaleone, esse herói despido de grandiosidade, é uma desconstrução contundente da figura clássica. Ele não cavalgou para a glória, mas para o ridículo pomposo, e ao seu redor, o séquito de marginalizados encarna cada distorção desse universo feudal com cores rasgadas e linguagem exagerada: um verdadeiro Dom Quixote louco andando por estradas corrompidas por peste, fome e guerras inúteis.
Mas o que me encanta mesmo é que essa comédia medieval não se contenta com o escracho fácil. Ela é uma sátira histórica refinada e atemporal, onde a arquitetura visual entrega com precisão o desconforto da Baixa Idade Média. Cada grota de barro, cada peruca mal posta, é parte de um humor irônico que trafega entre o absurdo e o comentário social indireto, a ponto de se consolidar como um épico realista que provoca risos e reflexões.
No filme, Brancaleone é seguido não por inspiração, mas pela promessa no futuro fácil, como uma piada trágica. E a ironia mata mais que as espadas, porque expõe que liderar um exército de fracassados imbuídos de ideais irreais é mais heróico que qualquer bandeira erguida em nome de uma causa e mais absurdo também. Uma dura lição sobre liderança e esperança.
Vittorio Gassman protagoniza essa história desastrosa, no ótimo sentido, com uma presença que navega entre a pomposidade e o patético. Ele não decorou um papel, ele o encarnou. Seu Brancaleone da Nórcia acredita ser um cavaleiro caído que tem sua própria importância, e é justamente aí que reside sua humanidade e sua comicidade afiada.
Contudo, nem tudo converge com perfeição. Os coadjuvantes, tão simbólicos quanto caricatos, às vezes parecem meros bonecos à espera de piada pronta, e não personagens com profundidade. Ainda assim, essa limitação acaba se convertendo em uma nova força narrativa: o verdadeiro personagem coletivo é o exército que falha junto, uma massa que derrota o herói sem sequer perceber.
No fim, com seu humor corrosivo, anatomia estética ferida e crítica social embutida, o filme permanece um monumento da comédia italiana, gerando inclusive a continuação Brancaleone nas Cruzadas (1970). Tão atual em sua denúncia da glória vazia quanto em sua inteligência cômica, capaz de nos fazer rir enquanto lembramos do que realmente importa: parece que, no íntimo, a humanidade nunca muda.
O Incrível Exército de Brancaleone (L’armata Brancaleone, 1966 / Itália)
Direção: Mario Monicelli
Roteiro: Mario Monicelli, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli
Com: Vittorio Gassman, Catherine Spaak, Folco Lulli, Gian Maria Volonté, Maria Grazia Buccella, Carlo Pisacane, Ugo Fangareggi, Gianluigi Crescenzi, Alfio Caltabiano
Duração: 120 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Incrível Exército de Brancaleone
2025-09-08T08:30:00-03:00
Ari Cabral
Alfio Caltabiano|Carlo Pisacane|Catherine Spaak|cinema europeu|comedia|critica|Folco Lulli|Gian Maria Volonté|Gianluigi Crescenzi|Maria Grazia Buccella|Mario Monicelli|Ugo Fangareggi|Vittorio Gassman|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Assistindo Coração de Lutador , o que mais me marcou foi perceber que este não é simplesmente mais um filme de superação esportiva. A obra...
-
Revisitar Matilda (1996) hoje é como redescobrir um filme que fala com sinceridade com o espectador, com respeito e sem piedade cínica. A ...
-
Branca de Neve (2025) surgiu como mais uma tentativa da Disney de traduzir seu legado animado para o cinema em carne e osso e música, mas...
-
Uma Babá Quase Perfeita é o tipo de comédia que nasce de uma ideia prodigiosamente simples e perigosa: um pai divorciado se veste de babá ...
-
Eu preciso confessar: revisitar Querida, Encolhi as Crianças é como entrar numa máquina do tempo. Não só pela estética encantadora dos anos...
-
Revisitar Os Bandidos do Tempo , de Terry Gilliam , é como redescobrir um mapa antigo de aventuras que mistura humor, história e uma imagina...
-
Poucos filmes conseguem, com tanta elegância e tensão contida, transformar um episódio amplamente conhecido da história recente em uma obra...
-
Ratatouille não é apenas um filme de animação sobre um rato que sonha em cozinhar em Paris . Assistir a esse longa é confrontar uma ideia ...
-
Se Enlouquecer, Não se Apaixone (2010), dirigido por Ryan Fleck e Anna Boden , chegou aos cinemas prometendo tratar de saúde mental com l...
-
Assistindo Eiffel (2021), é inevitável sentir um gesto de frustração que acompanha o espectador desde os primeiros cortes. O filme , dirigi...





