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O Doutrinador
O Doutrinador
Bate aquele ressentimento cinéfilo ao pensar que o cinema nacional ainda se vê encurralado entre comédias previsíveis e dramas excessivamente introspectivos. O Doutrinador surge e estoura esse paradigma com seu pulso visual. É raro sentir o país pulsando na tela com tanta crueza estilizada, ao mesmo tempo numa versão dark e tropical. A fotografia noturna, saturada de luzes de neon púrpura, transforma São Paulo em uma Gotham à brasileira: decadente, corroída e espetacularizada.
É no choque das cenas de ação que o diretor Gustavo Bonafé encontra seu terreno mais firme: coreografias tensas, cortes precisos, trejeitos de slow motion efetivo. Tudo isso dentro de parâmetros que nosso cinema raramente ousa tocar, mas que funciona. Há uma honestidade brutal, um incômodo na montagem que não disfarça: a narração se impõe, mas o filme quer ser mais sentido do que pensado.
O grande trunfo é transpor uma HQ com tanta visceralidade e conseguir, apesar das falhas, arrancar emoção quando o protagonista, um anti-herói mascarado, parte em sua vingança contra políticos criminosos. A máscara de gás, um símbolo imponente, leva à reflexão do sufocamento em que o protagonista vive. E que sua justiça violenta é a única saída para sua dor.
Mas é justamente nesse ímpeto narrativo que o filme escorrega: o roteiro parece hesitar, entre o drama intenso e a sátira política, entre empatia e manipulação de indignação. Os vilões gargalham caricaturalmente, os discursos têm uma falsa complexidade. E isso não intimida o espectador, parece uma piada mal contada. Sobra mais moralismo de impacto do que debate interno. Temos vontade de escapar do maniqueísmo, mas o embate narrativo não sustenta a ambiguidade, tornando o conflito frouxo.
Em cena, Kiko Pissolato assume Miguel com uma entrega física convincente. Seu corpo fala, suas lutas silenciam qualquer superpoder. Mas dramaticamente, ele é um homem esmagado pelo roteiro: trauma, filha morta, hospital falho. Tudo muito pesado, mas vazio em textura emocional. Tainá Medina, como hacker Nina, é a faísca mais interessante: moderna, elétrica, mas subutilizada. Surge para dar ritmo, mas acaba servindo de enfeite narrativo, sem profundidade.
Se há um momento memorável que vale, é quando Miguel encara a podridão da enfermaria onde sua dor e a corrupção se tocam. Ali o filme é poderoso: sem diálogos grandiloquentes, só a câmera, a luz fria, o corpo ferido e nosso inconsciente de cidadão cansado. É ali que o espetáculo e a crítica se encontram e incomodam.
O Doutrinador cumpre o papel de ruptura estética no cinema brasileiro, mas falta-lhe consistência dramática. Seu tema, a corrupção que corrói a alma do país, é urgente, pulsante e assustador. Mas o percurso para esse impacto poderia ser mais refinado, mais trabalhado, mais sincero. Ainda assim, o filme grita nosso desespero de ver políticos imorais sendo derrubados e isso, por si só, já é um incômodo que merece ser visto.
O Doutrinador (2018 / Brasil)
Direção: Gustavo Bonafé
Roteiro: Gabriel Wainer, Luciano Cunha, L. G. Bayão, Rodrigo Lages, Guilherme Siman
Com: Kiko Pissolato, Tainá Medina, Samuel de Assis, Eduardo Moscovis, Marília Gabriela, Carlos Betão
Duração: 110 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Doutrinador
2025-09-15T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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