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Sem Rastros
Sem Rastros
Assistindo Sem Rastros, filme baseado no romance My Abandonment, de Peter Rock, pela primeira vez, eu senti algo que não é exatamente raro, mas é raro o suficiente para ser marcante: aquela sensação de que o cinema pode levar você a um mundo silencioso sem, no entanto, te deixar vazio por dentro. Debra Granik, que já tinha chamado atenção com Inverno da Alma, trata aqui de uma narrativa que, à primeira vista, parece simples, mas que, sob a superfície, é um estudo profundo de laços humanos, traumas e escolhas.
O filme acompanha Will, um veterano de guerra com transtorno de estresse pós-traumático, e sua filha Tom vivendo isolados no Forest Park, em Portland. É um retrato que nunca recorre a floreios melodramáticos para provar seu ponto: estamos diante de pessoas reais, com linguagem corporal, gestos e pequenas concessões que dizem mais do que qualquer diálogo explicativo.
Desde a primeira cena, em que vemos Will e Tom cortando madeira ou jogando xadrez à beira de uma fogueira improvisada, Granik nos coloca ali não apenas como espectadores, mas como testemunhas das minúcias de uma rotina que foi construída fora dos limites convencionais da sociedade. A escolha deliberada de quase nenhum diálogo nesses momentos iniciais é um acerto narrativo: ela não só revela intimidade entre os personagens, mas também cria um ritmo contemplativo que se torna o pulso do filme. O naturalismo se justifica não apenas pela fotografia de Michael McDonough, que banha a mata em tons de verde e luz difusa, mas também pela maneira como a câmera observa e deixa o espectador absorver o ambiente antes de qualquer julgamento.
Ben Foster traz uma atuação que evita caricaturas: seu Will não é um herói de filme buscando sobrevivência, nem um sábio da natureza. Ele é um homem moldado pela violência de suas experiências, alguém cujo instinto de proteção se mistura com a recusa de colaborar com um mundo que o feriu. Essa ambiguidade é o que torna sua atuação fascinante. Ele nunca domina a cena, ele vive ali. E quando Thomasin McKenzie, que aqui faz o que eu chamaria de sua primeira grande prova de maturidade dramática, olha para o pai com aquela mistura de amor e crescente individualidade, percebemos que a história é, acima de tudo, sobre a tensão entre conexão e autonomia.
O momento que para mim resume toda a sensibilidade da direção está na sequência em que Tom encontra um coelho e, a partir dessa descoberta aparentemente banal, começa a experimentar conexões com outras pessoas e outros lugares. É uma cena sem grandes efeitos, sem música triunfante, mas que funciona como um pivô emocional. Tom está aprendendo a se olhar como alguém que pode pertencer ao mundo, não apenas acompanhar seu pai.
É inevitável que Sem Rastros seja comparado a outros filmes sobre isolamento ou vidas alternativas, como Capitão Fantástico. Mas onde aquele trabalha uma espécie de idealismo familiar quase utópico, a abordagem de Granik é terrivelmente concreta: você sente a angústia, a burocracia invasiva e a frustração de tentar encaixar um modo de vida que, embora funcione para Will, pode não ser saudável para uma criança em crescimento.
Apesar das qualidades, o ritmo, para alguns espectadores, pode parecer deliberadamente lento, e a falta de uma resolução convencional pode frustrar quem busca conclusões claras. Mas essa mesma paciência narrativa é também o que permite que o filme respire, que os personagens existam sem apelos artificiais à emoção.
O que Sem Rastros oferece, no fim, é menos um espetáculo grandioso e mais um espelho sutil: ele nos convida a reconsiderar como pensamos sobre pertencimento, trauma, comunidade e, principalmente, os laços que nos prendem e nos liberam ao mesmo tempo. É um filme que afirma sua humanidade não em grandes gestos, mas em pequenas pausas e olhares que duram um segundo a mais do que o esperado.
Sem Rastros (Leave No Trace, 2018 / Estados Unidos)
Direção: Debra Granik
Roteiro: Debra Granik, Anne Rosellini
Com: Ben Foster, Thomasin McKenzie, Jeff Kober, Dale Dickey
Duração: 109 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Sem Rastros
2026-01-19T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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