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Vampiros de John Carpenter
Vampiros de John Carpenter
Vampiros (1998), de John Carpenter, é um filme que vive na interseção do horror e da ação sem nunca realmente dominar nenhum dos dois gêneros, mas também sem ser um desastre completo. A narrativa acompanha Jack Crow, caçador de vampiros interpretado por James Woods, cuja vida foi marcada pela perseguição obsessiva a criaturas da noite após a tragédia familiar que o consome. O filme não reimagina o mito dos vampiros, apenas reutiliza e remixa a tradição, fundindo elementos do western e do cinema de ação com um horror mais físico que psicológico.
Carpenter constrói um mundo em que a Igreja Católica financia caçadores para aniquilar vampiros, uma abordagem curiosa que exige alguma suspensão de descrença, mas que cria uma mitologia própria dentro do filme. Há humor mordaz e momentos que claramente acenam para o espectador, especialmente nas interações de Crow com seu parceiro Montoya, vivido por Daniel Baldwin, e na forma como os métodos para matar vampiros são apresentados de maneira quase ritualística.
O tom do filme é uma das características mais peculiares. Há um humor seco e uma energia quase de western sangrento que pode ser apreciada, mas também a sucessão de confrontos sanguinolentos se traduz em um ritmo que, sem o terror eficaz, acaba sendo apenas uma repetição de esquetes. A impressão dominante é justamente a falta de sustos verdadeiros: Vampiros tem mais confrontos do que tensão, mais violência do que atmosfera.
A atuação de James Woods é deliberadamente exagerada. Ele vive um herói cansado, sarcástico e quase hiperbólico nas suas reações, parte do charme do filme. O elenco de apoio varia em força, com algumas performances que soam engajadas e outras que parecem lutar contra um roteiro que não lhes oferece muito além de estereótipos. A personagem de Sheryl Lee é muitas vezes reduzida a funções narrativas tradicionais, um reflexo de um roteiro que prioriza estilo sobre profundidade dos personagens.
Carpenter é um diretor que sempre soube como brincar com gêneros, e em Vampiros ele usa algumas de suas ferramentas clássicas: câmera funcional, trilha que reforça o tom poeirento do deserto, e sequências de ação que não temem manchas de sangue exageradas. Mas o filme peca em não saber ao certo o que quer ser: uma homenagem trash, um terror cult ou uma aventura cinematográfica séria. Essa incerteza é parte do que o torna um filme difícil de classificar, embora também seja parte do que mantém seu valor como objeto de discussão entre fãs de horror e crítica cinematográfica.
Uma cena que representa bem essa ambiguidade é o ataque inicial a um esconderijo vampírico: a violência é explícita, quase caricatural, e mostra o filme se divertindo com seus próprios excessos, mas isso é acompanhado de uma sensação de que a história em si não está progredindo para algo maior, além da próxima explosão ou morte grotesca. Esse embate entre estilo acima de substância é o coração de Vampiros.
No equilíbrio entre pontos positivos e negativos, Vampiros pode ser visto tanto como um produto de entretenimento para quem procura ação sangrenta e dinamismo, quanto como um exemplo das dificuldades de um diretor icônico tentar se adaptar a novos tempos sem perder o foco narrativo. Não é um clássico do horror, nem um dos melhores filmes de Carpenter, mas também não é completamente descartável. Sua energia bruta e momentos de humor involuntário garantem um tipo de prazer estranho para públicos que se aproximam dele com expectativas adequadas.
Vampiros (John Carpenter’s Vampires, 1998 / Estados Unidos)
Direção: John Carpenter
Roteiro: John Steakley, Don Jakoby
Com: James Woods, Daniel Baldwin, Sheryl Lee, Thomas Ian Griffith, Maximilian Schell
Duração: 108 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Vampiros de John Carpenter
2026-01-16T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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