Existe um momento muito específico em Superman em que o cinema parece mudar de escala sem fazer barulho. Não é uma explosão, nem uma cena de ação. É quando Christopher Reeve, ainda como Clark Kent, ajusta os óculos, curva o corpo e se transforma diante dos nossos olhos. Não com efeitos digitais, mas com atuação pura. Ali, o filme revela seu maior trunfo: fazer o impossível parecer simples.
Dirigido por Richard Donner, o longa nasce com uma ambição curiosa para a época. Não queria ser apenas uma adaptação de quadrinhos. Queria ser levado a sério. E isso se percebe desde a abertura em Krypton, um prólogo visualmente grandioso, mas dramaticamente um pouco pesado. A presença de Marlon Brando dá prestígio, mas também evidencia um certo excesso de solenidade. É um início que parece mais preocupado em se justificar como cinema adulto do que em envolver emocionalmente.
Mas quando a narrativa chega à Terra, especialmente na fase em Smallville, algo se ajusta. O filme encontra seu ritmo e sua identidade. Donner entende que Superman não funciona apenas como espetáculo. Ele precisa funcionar como ideia. E essa ideia é a de um herói que não é atormentado ou ambíguo, mas essencialmente bom. Em um cinema contemporâneo saturado de anti-heróis, essa pureza clássica soa quase radical.
Christopher Reeve é o eixo de tudo. Não apenas porque convence fisicamente, mas porque cria duas pessoas distintas. Seu Clark Kent não é apenas um disfarce, é uma construção corporal e psicológica. Ombros caídos, voz hesitante, olhar inseguro. Já o Superman é firme, direto, luminoso. Essa dualidade sustenta o filme emocionalmente. Sem ela, tudo desmoronaria.
Ao redor dele, o filme oscila. Margot Kidder traz uma Lois Lane energética, quase caótica, que funciona bem dentro da proposta mais leve de Metropolis. Já Gene Hackman, como Lex Luthor, é talvez o ponto mais controverso. Sua interpretação abraça o exagero, flertando com o cômico de maneira que quebra a unidade tonal. Em alguns momentos diverte, em outros parece deslocada, como se viesse de um filme diferente.
Essa irregularidade de tom é, aliás, uma das marcas do filme. Richard Donner tenta equilibrar humor, romance, ficção científica, fantasia e aventura, e nem sempre consegue com fluidez. Há uma sensação de que o filme muda de registro conforme avança. Ainda assim, essa mistura também é parte do seu charme. Ele não tem medo de ser grandioso e ingênuo ao mesmo tempo, como a dualidade vivida por seu protagonista.
Tecnicamente, os efeitos especiais são fascinantes quando vistos no contexto. A promessa “você vai acreditar que um homem pode voar” do poster não era apenas marketing. Era um desafio. E, dentro das limitações da época, o filme cumpre. Há imperfeições visíveis que percebemos hoje, principalmente nas cenas de voo, mas existe uma fisicalidade nesses efeitos que o CGI moderno muitas vezes não alcança. A imperfeição aqui não quebra a ilusão, ela humaniza.
A trilha sonora de John Williams merece um capítulo à parte. Poucos temas musicais na história do cinema são tão imediatamente reconhecíveis. Uma música que, mais do que apenas acompanhar o herói, o define. Cada vez que o tema principal surge, reforça a ideia de grandeza, de esperança, de algo maior do que o próprio filme.
E então há o momento mais discutido. O final, com a famosa reversão do tempo, é ao mesmo tempo ousado e problemático. Dramaticamente, ele enfraquece as consequências da narrativa. Mas simbolicamente, diz muito sobre quem é Superman. Um ser capaz de desafiar até as leis da física para salvar alguém que ama. É absurdo, sim, mas também profundamente coerente com a lógica emocional do personagem.
Talvez seja por isso que Superman permaneça tão relevante. Ele não é perfeito. Tem problemas de ritmo, inconsistências tonais e soluções narrativas questionáveis. Mas acerta no essencial. Ele entende que Superman não é interessante por sua força, mas pelo que representa.
Não por acaso, o impacto cultural do filme ultrapassou o cinema. No Brasil, ele ecoou até na música, servindo de inspiração para “Super-Homem, a canção”, de Gilberto Gil, que reinterpretou o mito sob uma perspectiva humana e sensível, o que diz muito sobre a força simbólica dessa versão do herói.
Rever o filme hoje é perceber que ele não apenas inaugurou um gênero. Ele estabeleceu um modelo. Antes dele, filmes de super-herói eram curiosidades. Depois dele, passaram a ser eventos. E talvez nenhum outro tenha conseguido equilibrar com tanta honestidade o espetáculo e a crença. Porque, no fim, o que o filme pede não é admiração técnica. É algo mais simples e mais difícil. Ele só pede que você acredite.
Superman - O Filme (Superman, 1978 / EUA, Reino Unido, Canadá)
Direção: Richard Donner
Roteiro: Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Robert Benton
Com: Christopher Reeve, Margot Kidder, Gene Hackman, Marlon Brando, Glenn Ford
Duração: 143 min.





