quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Surpreendente Tempos de Paz

Cena do filme Tempos de PazConfesso que estava com um pé atrás em relação a esse filme. Daniel Filho havia criado uma sólida carreira com comédias de sucesso, com um certo resquício televisivo, mas bastante divertidas. Do seu único drama genuíno que foi o Primo Basílio (já que A Dona da História tem um pé na comédia também) eu não tinha gostado. Então, Tempos de Paz corria sérios riscos. Mas, tenho que admitir que ele é inteligente e conhece o produto que tem nas mãos. Assim, fez um filme muito bem dosado e soube valorizar o que este tem de melhor: o excelente texto de Bosco Brasil e a interpretação fantástica de seus dois protagonistas.

Dan Stulbach Tempos de PazO texto, baseado na peça Novas Diretrizes em Tempo de Paz, é uma emocionante ode ao teatro e fica muito bem nas telas. A adaptação foi inteligente em não querer abusar de flashbacks, nem tentar enxertar mais ação, erro típico de filmes recentes. Ele percebe a força do diálogo e deixa ele fluir no dueto desses dois grandes atores, principalmente Dan Stulbach que emociona ao recitar um monólogo decisivo. Mesmo a história do médico interpretado pelo próprio Daniel Filho, que a princípio parece sem sentido, esdrúxula, consegue se encaixar bem ao final.

A história conta o encontro de Segismundo, um ex-torturador da ditadura Vargas que trabalha na alfândega identificando nazistas, e o polonês Clausewitz, que após sobreviver ao horror da guerra quer viver no Brasil como agricultor. Ao chegar falando um português quase perfeito a ponto de recitar Carlos Drummond de Andrade levanta suspeitas dos agentes que o levam a Segismundo para um interrogatório. Após várias contradições, os dois fazem uma aposta, se Clausewitz conseguir fazer Segismundo chorar, ele fica no Brasil, do contrário segue viagem com o cargueiro. Aí começa um dos embates mais bonitos que já vi.

Tony Ramos e Daniel Filho Tempos de PazPouco tenho a dizer a direção em termos cinematográficos. Tirando as primeiras cenas da chegada do navio que muito me lembraram o péssimo Olga, Daniel Filho consegue manter-se neutro, enquanto deixa os atores fazerem o texto fluir. E não é uma ironia, um bom diretor também sabe a hora em que tem que se anular para que a obra fale por si. Qualquer invenção naquele momento seria excesso. Seu trabalho maior foi na direção de cena e de atores, coisa que ele sabe fazer muito bem pelo histórico que tem. Vale lembrar que ele filmou tudo em 10 dias e gastou apenas 1,5 milhão de reais.

É um bom filme que merece ser visto por todos. Que bom que o cinema nacional está ampliando seu leque de opções e temas. E viva ao teatro, arte milenar capaz de emocionar até hoje.



Ah, esqueci de falar, o melhor foi ver que os trailers antes do filme também eram de duas promessas do cinema nacional, outro filme do diretor sobre Chico Xavier e o surpreendente Besouro.

5 opiniões:

Alex Sandro Alves disse...

Ainda não vi o filme, mas está na minha programação. Pelo o que andei lendo ele dividiu a crítica. Inclusive as atuações de Tony Ramos e Dan Stulbach foram alvo de controvérsias. Abs!

19 de agosto de 2009 10:46
O Cara da Locadora disse...

Não sabia que alguém tinha polemizado sobre as atuações deles... Mas sobre seu texto, é mais ou menos o que eu escrevi também, assino embaixo, rs...

19 de agosto de 2009 15:08
Charles disse...

Oi Amanda! Sempre morro de medo quando surge um filme do Daniel Filho. Geralmente não assisto pois tenho medo de passar mal dentro do cinema. Todos os que vi dele até hoje me parecem um capítulo de novela espichado, principalmente na parte técnica. Para Primo Basílio ser considerado ruim, teria que melhorar muito. Mas enfim, estão falando bem de Tempos de Paz. E não são poucas pessoas. Talvez eu cure meu preconceito com esse filme,rs. abs.

19 de agosto de 2009 18:39
Amanda Aouad disse...

É, Alex, pra mim também é novidade essa de críticas não terem gostado das atuações, eu particulamente continuo achando o "macaco" do filme.

Ricardo, verdade, nossas opiniões foram bem parecidas.

Charles, só não digo vá sem medo, porque eu fui com medo e gostei. hehe. Mas, veja e depois me diga.

19 de agosto de 2009 19:42
Fred Burle disse...

Eu também não estava muito empolgado em ver esse filme, mas as boas críticas que venho lendo estão me convencendo do contrário.
Tomara que consigam pelo menos se pagar, já que no fim de semana de abertura, o filme teve pouco mais de 10% do seu custo, arrecadado.
Só vai vingar se o boca-a-boca for eficiente...

20 de agosto de 2009 01:19

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