05/03/2010
Por que tanto barulho por Guerra ao Terror?
Um filme independente foi lançado, poucos apostaram nele, quase não houve divulgação. A miopia foi tanta que os distribuidores brasileiros acharam que não valia a pena gastar cartucho com ele e lançaram diretamente no DVD. De repente, esse filme começa a ganhar a mídia, finalista de vários prêmios, vencedor de alguns, incluindo o recente BAFTA onde levou melhor filme, direção e roteiro. Chegou ainda ao Oscar com nove indicações e dividindo os holofotes com uma super produção de 500 milhões que já era esperada há anos. Parece conto de fadas, a menina pobre que conhece o príncipe e vira uma princesa, mas a verdade é que por trás de tudo isso, encontra-se um filme tenso, muito bem dirigido, com um roteiro inteligentíssimo e, por que não, inovador.
Não é só com efeitos especiais que se inova no cinema. A forma de contar a história é essencial nesse processo e Kathryn Bigelow conseguiu aquilo que Neill Blomkamp tentou em Distrito 9, levar a linguagem do documentário para a ficção. A câmera na mão, efeitos sonoros todos intra-diegéticos, linguagem realista e ritmo narrativo real. Há elipses, claro, em documentários também, mas a construção das cenas nos dão uma sensação de documentação do dia a dia daqueles soldados. A edição, no entanto, é rápida, picotada, não deixando que a narrativa fique monótona. Não há uma grande trama, uma jornada a ser seguida. O filme conta a rotina de desarmadores de bomba no Iraque. Sem pontos de vistas privilegiados, sem vangloriar os Estados Unidos, nem mesmo o estado de guerra. Há apenas a tese defendida de que a adrenalina da batalha vicia. E quem um dia irá dizer que não há razão nisso?
A tensão é constante, porque a sensação é real. O plot point do filme é uma explosão, aos nove minutos de projeção, com a morte do que aparentava ser o protagonista. O impacto é forte. Desde então, ficamos suspensos em nossa atenção, com a eminência de outra explosão. Mesmo quando aparentemente a tensão acaba, fica uma dúvida, "será que agora tá seguro?" É assim em uma das cenas mais complexas do filme, quando James tenta desarmar várias bombas dentro de um carro. Mesmo depois dele ter achado o dispositivo, Kathryn Bigelow nos dá vários planos-detalhes que mantêm a tensão, como se algo ainda não tivesse terminado.
Aliás, o filme está repleto de planos detalhes, de big closes e câmeras subjetivas que só aumentam a tensão da situação. E mesmo com a explosão do início, a tensão consegue ser crescente. Por incrível que pareça, a tensão só cai um pouco em uma sequência de tiros, mesmo assim, a construção continua mantendo o suspense e após uma descarga forte, o clima volta a ficar o mesmo.
Em alguns momentos, o roteiro de Mark Boal apela para o melodrama, é uma forma, provavelmente, de humanizar um pouco mais a situação, precisamos nos afeiçoar ao personagem para sentir sua dor. É assim com o garoto iraquiano ou com um soldado mais novo que fala de sua certeza que vai morrer. Interessante perceber que ele fala da morte eminente enquanto joga um video-game de tiro. Mesmo em plena guerra, com toda aquela adrenalina, sua diversão é dar tiros na tela. Há uma bela crítica aí. Assim como na necessidade de adrenalina do sargento James, vivido muito bem por Jeremy Renner. Ele não se contenta em desarmar bombas. Ele arrisca mesmo quando seus superiores mandam parar, ele resolve pegar as luvas esquecidas no meio do teste de explosões, ele quer ficar quando todos sonham em ir embora. Seu embate com o sargento TJ (Anthony Mackie) é um ponto extra em toda a história, que a faz andar. Mesmo que não haja aqui, vilões ou mocinhos.
Por tudo isso, Guerra ao Terror está tão bem cotado, e provavelmente leva algumas estatuetas para casa. Eu torço para que seja o de direção, que ainda quebra o tabu de mulheres vencendo na categoria.






































8 opiniões:
Taí um filme realmente surpreendente apesar de, para mim, não ser tãão inovação assim o que ela fez, é sem dúvida um filme sólido e que merece "tanto barulho". Senti sua alfinetada no Avatar ao dizer que "nem só com efeitos especiais se inovam", rs, e concordo com você. Gosto bastnate do Avatar, mas realmente Bigelow produziu um cinema de qualidade superior ao seu concorrente direto...
6 de março de 2010 01:55PS: Uma das coisas que mais me chamou atenção, que você comentou, é essa eterna sensação de que algo vai acontecer sendo que, na maioria das vezes, não acontece...
Tem muita gente falando sobre o filme ser uma jogada de marketing pela permanência dos EUA no Iraque, mas essas pessoas estão completamente equivocadas, visto ser um filme sobre o vício da guerra, que a critica, e não a justifica em momento algum. Gostei muito de 'Guerra ao Terror' e, com certeza, leva algumas estatuetas.
6 de março de 2010 11:31Verdade Cara, a sensação de suspense é grande. Agora, quanto a alfinetada em Avatar, foi sutil, só porque já vi muitos comentários de amigos meus dizendo que Avatar tem que ganhar o Oscar porque trouxe bastante inovação... Então, quis protestar a isso, mas eu o acho um bom filme também, mas Guerra ao Terror é superior.
6 de março de 2010 18:13Concordo, Mattheus, o filme não toma partido direto, ele mostra a realidade e critica o vício principalmente com seu final.
abraços
E foi o campeão do Oscar !!!! Merecido, mas deveria ter levado o prêmio de fotografia também.
8 de março de 2010 14:41Tô te seguindo no Twitter.
Concordo com Matteus e contigo Amanda quando vocês se referem a imparcialidade com a qual o filme mostra o conflito. Entretanto discordo sobre a superioridade do filme comparado com outros longas de 2009 e inicio de 2010,sobretudo Avatar. Gostei muito do Guerra ao Terror:inteligente, dinamico, tenso... Contudo Avatar na minha concepção além de dispor destas qualidades acima mencionadas, esta alem de qualquer analogia cinematografica, não só devido a profusão de efeitos especiais, mas particularmente pela utilização dos mesmos para representar uma civilização simples, sem recursos tecnologicos ,mas com um alto nivel espiritual e de comunhão com a mãe-natureza.
9 de março de 2010 15:35Bjs, Amanda
Anônimo (ou diria prefeitinho? hehe) entendo suas observações e respeito. Acho que Avatar tem muita coisa boa e não sou do time que o considera só pirotecnia. Mas, representar uma civilização por si só, O senhor dos Anéis também fez. De todos, acho que Bastardos Inglórios é o que tem maiores méritos, mas Guerra ao Terror se mostrou surpreendente e nos prende a atenção por completo. Por isso, acabei achando justa sua premiação. Avatar inova, sim, mas tem muito marketing por trás dele, acho exagerado dizer que ele está acima de qualquer analogia. Do ponto de vista tecnológico sim, não há nenhum como ele, mas do cinematográfico não, porque James Cameron não reinventou a linguagem, apenas acrescentou um elemento. Seria como dizer que não podemos comparar um filme P&B com um colorido...
9 de março de 2010 19:54bjs e volte sempre (de outra vez se identificando)
Pois é Amandinha, né que tu me convenceu do meu exagero em arfimar que Avatar está acima de qualquer comparação. Afinal de contas não houve, como você frisou, nenhuma reinvenção na linguagem cinematográfica, a despeito de sua superioridade tecnológica. E a propósito, indubitavelmente Bastardos Inglórios tem maiores méritos...
11 de março de 2010 21:00Pronto, agora vc se identificou, hehe. Que bom que reconheceu o exagero, mas continua fiel às suas escolhas. É por isso que o cinema é tão fascinante, nada é absoluto e sempre terão divergências. Mas, Bastardos seria mesmo a melhor escolha.
11 de março de 2010 23:05bjs
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