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Apocalipse nos Trópicos

Apocalipse nos Trópicos -  filme

Assistir a Apocalipse nos Trópicos foi como encarar um espelho quebrado onde, a cada fragmento refletido, um Brasil se oferecia nu, com suas contradições, dores e medos, empunhando a fé como arma de persuasão e poder. Dirigido por Petra Costa, o documentário tem ambição clara: mapear a ascensão avassaladora do evangelicalismo no Brasil e sua encruzilhada com a política, especialmente no contexto que levou ao governo Jair Bolsonaro e à influência de Silas Malafaia. A proposta é urgente, talvez necessária; o resultado, por vezes incômodo, nem sempre satisfatório, mas sempre importante.

Visualmente, o filme bebe da linguagem característica de Petra Costa: a narração em off, marcada pelo seu olhar pessoal e íntimo, que acompanha imagens de arquivo, discursos inflamados, ruas vazias da pandemia, templos lotados, multidões em fé e em fúria. Essa justaposição gera um clima de inquietação permanente: parece que o Brasil, através das lentes da diretora, perde o fôlego aos poucos, como quem vê um país se transformar em câmera lenta. A montagem deliberada e o ritmo pausado dão ao espectador o tempo para digerir a mistura explosiva entre religiosidade, medo, esperança e manipulação. Quando a câmera se detém em um culto ou em um sermão de Malafaia, aquilo não é apenas uma cena: vira advertência, vira símbolo. E essas escolhas estéticas são um dos pontos fortes do filme, que dificilmente sai de cena com a leveza de quem passou ali só para se entreter.

No entanto, essa mesma potência estética e dramática convive com limitações estruturais. Petra Costa opta por tornar seu protagonista, ou pelo menos seu epicentro narrativo, o pastor Silas Malafaia. A figura dele é explorada com detalhes: sua oratória, seu carisma, seu papel de liderança midiática. Mas ao escolher Malafaia como a metáfora primeira do evangelicalismo político brasileiro, o documentário simplifica uma realidade muito maior e diversa. A força de grandes segmentações do protestantismo, as igrejas de bairro, as comunidades periféricas, os evangélicos não-televisionados, acabam invisíveis e sub representados. A fé vira estigma, o evangelicalismo, caricatura de vozes extremas. Há, por parte do filme, um risco claro de reduzir uma pluralidade complexa a um estereótipo de poder e manipulação.

Apocalipse nos Trópicos -  filme
Além disso, o arco narrativo do “colapso-pandemia-ascensão religiosa-crise política” é percorrido com tanta pressa e com tanta amplitude que certos elos ficam frouxos. Por exemplo: o filme menciona a pandemia de Covid-19 e a omissão estatal, o papel de pastores no alívio espiritual e social, mas mal toca nas redes sociais, nos algoritmos, nas novas formas de mídia e militância religiosa, que hoje são vetores centrais para o evangelismo contemporâneo. Essa omissão enfraquece a análise histórica, porque dá a impressão de que a ascensão evangélica se explica apenas pela soma de crise social e pregação de pastores carismáticos, quando sabemos que a dinâmica é bem mais complexa.

Outro problema: o tom de narração, às vezes introspectivo, marcadamente urbano, denuncia uma distância de classe e vivência. A reação da diretora, que admite surpresa diante da força da fé de parte significativa da população, revela bem esse abismo. Isso torna o olhar crítico mais vulnerável a acusações de ingênuo ou reducionista: como quem olha de fora para dentro e julga sem se comprometer com o debate real de quem vive essa fé e essa realidade diariamente. Ali onde poderia haver diálogo, existe uma inclinação à condenação simbólica.

Apocalipse nos Trópicos -  filme
Dito isso, Apocalipse nos Trópicos acerta ao lançar um alerta necessário. Ele força o espectador a encarar o perigo da instrumentalização da fé como estratégia de poder. Há cenas de força: cultos massivos, discursos que evocam medo e salvação, a justaposição entre promessas de prosperidade e a miséria real, a manipulação emocional em nome de agendas ocultas. Nessas passagens, o documentário se torna um grito contra o colapso da laicidade e da democracia, um aviso de que a fé, quando submetida à lógica do poder, pode se tornar arma de dominação.

Mas o filme também falha quando entrega perguntas poderosas, mas evita aprofundar suas respostas. Falta-lhe maior pluralidade de vozes, maior rigor analítico, menos dependência da lógica da unicidade de culpabilização e mais disposição para mostrar a complexidade social, econômica e cultural que sustenta o fenômeno. Por isso, ainda que valioso, o filme não se firma como uma análise definitiva, é mais uma provocação. Como um começo de diálogo, não como encerramento.

Para mim, o valor de Apocalipse nos Trópicos reside, sobretudo, no seu desconforto. Ele não acalma, não consola; pelo contrário, inquieta. Mostra que o Brasil atual é um terreno minado de fé, medo e ambição, e que a linha entre crença e manipulação é tênue. Talvez o maior mérito da obra seja não dar respostas fáceis, mas tentar, de sua maneira, acordar quem dorme convicto de que fé e democracia são compatíveis sem risco.

Mas para quem procura entender o fenômeno evangélico brasileiro em toda sua extensão, Apocalipse nos Trópicos é apenas um espelho parcial. A fé continua viva, diversa, multifacetada, e talvez precise de um documentário ainda mais corajoso, plural e sereno para ser compreendida de verdade. Este, no entanto, já cumpre um papel vital: o de denunciar que, quando fé e poder se entrelaçam sem cuidado, o futuro da democracia corre risco real.


Apocalipse nos Trópicos (Apocalypse in the Tropics, 2024 / Brasil, EUA, Reino Unido)
Direção: Petra Costa
Roteiro: Petra Costa, Alessandra Orofino, Tina Baz, David Barker, Nels Bangerter, Moara Passoni
Com: Petra Costa, Silas Malafaia, Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva
Duração: 109 min.

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