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Porky's - A Casa do Amor e do Riso
Porky's - A Casa do Amor e do Riso
Porky’s é um daqueles filmes que dizem muito sobre um certo modo de fazer comédia adolescente nos anos 80, mas que hoje revela de forma crua suas contradições. Dirigido por Bob Clark, um diretor que viria a ser lembrado igualmente pela nostalgia de Uma História de Natal e por obras polêmicas como esta, Porky’s se apresenta como um retrato burlesco da moeda de troca mais valiosa para adolescentes em qualquer época: a busca pelo sexo e pelo riso fácil.
O enredo gira em torno de um grupo de amigos no sul da Flórida na década de 1950, obcecados em perder a virgindade e em arquitetar vinganças contra Porky, o dono de um bar-cabaré que os humilha. Essa premissa simples alimenta uma série de gags e situações que, à primeira vista, parecem obedecer ao código da comédia física e libertina: cenas de nudez, trocadilhos escatológicos, provocações entre os garotos e adultos e uma sucessão de piadas sobre sexo.
Do ponto de vista de atuação, Porky’s tem um elenco de jovens atores, dos quais poucos tinham carreira consolidada. Dan Monahan como Pee Wee e Mark Herrier como Meat encarnam personagens mais definidos por suas neuroses sexuais do que por qualquer profundidade humana. Em situações como a famosa cena do chuveiro, em que os garotos espiam as garotas por um buraco na parede, que se pretende cômico mas que hoje causa desconforto, fica evidente que o filme aposta na exploração do desejo masculino adolescente sem reflexões sofisticadas sobre este desejo.
Há, sim, momentos em que a película tenta se afastar do humor bruto. A relação entre os jovens e o contexto social dos anos 50 é insinuada em passagens que tangenciam preconceito, como uma pitada de racismo ou a presença de personagens que sofrem marginalização. Mas essas notas, embora estejam lá, são secundárias ao conjunto de gags sexuais e situações de humor físico. A diretoria de Bob Clark, que frequentemente funcionava tanto em espaços mais sentimentais quanto em terrenos cômicos duros, aqui opta por enfatizar a farsa e a provocação em detrimento de uma visão mais crítica ou empática da adolescência.
Não se pode discutir Porky’s sem enfrentar sua recepção histórica. Na época do lançamento, o filme foi um fenômeno de bilheteria, repetindo uma fórmula que misturava a nostalgia dos anos 50 com o humor desinibido dos anos 80, inclusive sendo por várias vezes exibido na Sessão da Tarde. Ainda assim, críticos à época apontaram repetidamente sua misoginia, sexualização explícita e humor que hoje popularmente já soa datado ou ofensivo. Uma celebração de um mau comportamento.
Existe, no entanto, uma dimensão curiosa no impacto do filme: apesar de suas falhas de roteiro e de desenvolvimento de personagem, Porky’s capturou de forma visceral a ansiedade sexual do público jovem de sua época. A comédia física explícita, o choque proposital e aquela sensação de espontaneidade atraíram audiências que viam no excesso uma forma de identificação. E, ainda que muitas das piadas não se sustentem, e nem devam se sustentar, para um público moderno, elas documentam um estilo de humor que influenciou gerações de comédias adolescentes posteriores.
Mas esse impacto tem limites claros. Quando revisitamos o filme hoje, percebemos que o que outrora era transgressão muitas vezes se apoia em estereótipos agressivos e em representações que pouco acrescentam a uma narrativa consciente sobre gênero, desejo ou crescimento. Isso não invalida totalmente o valor de Porky’s como um artefato cultural, mas o reduz a um exemplo de como o entretenimento pode ser ruidoso sem ser verdadeiramente perspicaz. E aí reside o maior paradoxo do filme: ele procura atrair pelo riso fácil e pela provocação, mas quase nunca se arrisca a provocar reflexão além do choque superficial.
Para além do riso fácil e das cenas explícitas, Porky’s é um filme que pode fazer a plateia rir, encolher os ombros ou perder o fôlego de desconforto, mas dificilmente permanece no imaginário por sua elaboração narrativa ou profundidade temática. É um espelho raso, mas curioso, que nos permite rastrear a evolução dos valores culturais e o que consideramos humor ao longo das décadas. Não para se esquecer ou esconder, mas para se estudar para não se repetir.
Porky’s – A Casa do Amor e do Riso (Porky’s, 1982 / Estados Unidos)
Direção: Bob Clark
Roteiro: Bob Clark
Com: Dan Monahan, Mark Herrier, Wyatt Knight, Roger Wilson, Kim Cattrall, Chuck Mitchell
Duração: 99 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Porky's - A Casa do Amor e do Riso
2026-01-21T08:30:00-03:00
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