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Tubarão
Tubarão
Quando penso em Tubarão hoje, não consigo dissociar duas sensações: a do medo primitivo que senti na primeira vez que ouvi aquela batida dupla de John Williams, e a admiração pela construção narrativa que ainda hoje é estudada nas salas de edição de cinema. O filme de Steven Spielberg não é apenas um thriller sobre um predador do mar; é um estudo quase clínico sobre como o medo funciona quando você o administra com precisão cirúrgica.
Desde a famosa sequência inicial, em que uma jovem mergulha sob a lua e desaparece sem que a criatura jamais seja mostrada claramente, Spielberg nos ensina uma lição fundamental sobre suspense: o que não se vê costuma ser mais aterrorizante do que aquilo que se mostra explicitamente. Essa abordagem, tão influenciada pelo cinema de Alfred Hitchcock, transforma cada instante de silêncio, cada plano submerso, cada composição sonora em um elemento narrativo que vai além da simples “suspensão do monstro”.
O impacto disso sobre o público é profundo. Não é o tubarão em si que assusta, é a expectativa construída pela trilha, pelos enquadramentos e pelo ritmo que Spielberg impõe. A escolha de manter o tubarão oculto durante boa parte do filme é um exemplo de economia dramática. Enquanto muitos filmes posteriores cederam à tentação de exibir o efeito especial mais chocante, Tubarão usa a sugestão, a espera, e literalmente nos faz olhar para o perigo com os olhos que ele nos empresta.
Esse efeito não surgiu por acaso ou simplesmente porque o equipamento era limitado. Há uma inteligência por trás disso que se conecta com o modo como percebemos o risco. Se não conseguimos ver o predador, imaginamos suas formas com base no som, no olhar dos personagens e nas pequenas pistas visuais. Isso é cinema puro: o espectador como coautor do medo.
As atuações, longe de serem caricaturais, são parte essencial dessa textura emocional. Roy Scheider como o chefe de polícia Brody nos dá um centro humano para a aventura. Ele é um homem comum, alguém de que compartilhamos a ansiedade e cujas falhas nos tornam ainda mais próximos. Richard Dreyfuss, no papel do oceanógrafo Hooper, equilibra curiosidade científica e vulnerabilidade, enquanto Robert Shaw, como Quint, entrega uma presença tão imprevisível quanto o próprio mar. A sua narrativa interna culmina em uma das passagens mais lembradas do filme, o que não só revela motivações, mas também determina o tom de fatalismo que acompanha o espectador até o fim.
Ainda assim, o filme não escapa a alguns problemas. A aparência física do tubarão mecânico, em determinados momentos, traz um certo artifício, um lembrete de que aquilo que era eficaz nos anos 1970 hoje pode parecer datado diante dos efeitos digitais contemporâneos. Mas essa artificialidade quase funciona a favor do filme, pois nos devolve à ideia de que o medo é criado na mente do espectador, e não na perfeição técnica de um monstro de borracha.
O equilíbrio narrativo entre a urgência das investidas do tubarão e o desenvolvimento dos personagens é outro motivo pelo qual Tubarão ultrapassou sua época. Não é apenas sobre ação e sustos; é sobre como diferentes personalidades respondem a uma ameaça extrema e como a convivência com o medo altera relações humanas. A execução de Spielberg aqui já prenuncia os temas que ele exploraria em seus trabalhos posteriores: a responsabilidade, o confronto com forças além do controle humano e, acima de tudo, a condição humana diante do desconhecido.
Se me perguntarem qual momento sintetiza Tubarão como obra, volto sempre àquele silêncio pré-ataque na praia. Não há música ainda, apenas o som ambiente, o olhar vazio da água refletindo o céu e a expectativa tensa que se instala. Quando a trilha enfim invade a cena, já estamos emocionalmente capturados. Essa experiência coletiva de espectador à beira de um sofá, sem respirar, é a marca registrada de um filme que não só define um gênero, mas o eleva.
Tubarão (Jaws, 1975 / EUA)
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Peter Benchley, Carl Gottlieb
Com: Roy Scheider, Richard Dreyfuss, Robert Shaw, Lorraine Gary, Murray Hamilton
Duração: 124 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Tubarão
2026-03-06T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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