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Cinderela Baiana
Cinderela Baiana
Nada no cinema nacional, antes ou depois de 1998, preparou o público para um filme tão singular quanto Cinderela Baiana. O longa de Conrado Sanchez nasceu no limiar de uma década em que o Brasil começava a olhar para sua identidade cinematográfica com mais urgência, mas esbarrou numa visão de mundo e de produção que jamais encontrou o tom narrativo ou técnico esperado por qualquer espectador minimamente exigente.
Ler a sinopse da menina pobre que foge do sertão para buscar a vida em Salvador e que descobre na dança a sua vocação faz antever um melodrama simples, talvez até inspirador. Porém, desde os primeiros minutos fica claro que aquilo que poderia ter sido uma cinebiografia com potencial de explorar cultura, música e identidade baiana termina sendo uma sucessão de escolhas narrativas desconexas e mal justificadas. A narrativa salta de uma cena para a outra sem lógica emocional. Eventos dramáticos, como a morte da mãe, ganham resolução quase imediata, como se o impacto desses acontecimentos sequer importasse.
Uma das grandes feridas do filme está na atuação da própria protagonista, Carla Perez. Embora seja injusto cobrar de alguém sem formação dramática a execução de um personagem profundo, a maneira como ela ocupa a tela é mecânica. As emoções passam por expressões e gestos repetitivos, como se houvesse uma lacuna entre intenção dramática e execução real. Nos momentos mais supostamente comoventes, sua presença parece deslocada, sem conexão com o mundo interno da personagem ou com as outras pessoas à sua volta. É algo que ultrapassa uma atuação fraca: é a própria construção da personagem que não permite uma ancoragem emotiva no público.
Perry Salles, no papel do empresário Pierre, abraça um histrionismo exagerado, como se cada linha de diálogo fosse uma cena de teatro tomada pelo excesso. Alexandre Pires, cantor mais conhecido do que ator, se move pela história como uma presença musical pontual, mas narrativamente fraca, sem que sua jornada se encadeie com as exigências dramáticas da história. Entre todos, apenas Lázaro Ramos, num dos seus primeiros papéis no cinema, parece encontrar algum equilíbrio, não por excelência de performance, mas por conseguir trabalhar com aquilo que lhe foi dado, mesmo que limitado.
Tecnicamente, Cinderela Baiana tropeça de forma quase épica. A direção de fotografia é inconstante, ora exageradamente iluminada, ora sem definição clara, o que causa estranhamento mesmo nos espectadores mais tolerantes. A trilha sonora, dominada por axé e samba genéricos, poderia ser um elemento de união cultural, mas aparece solta na narrativa, sem realmente impulsionar ou aprofundar os personagens ou os conflitos que enfrentam. Não há desenvolvimento dramático através da música, e isso empobrece a textura narrativa quando comparado a outros musicais que usam canções como ponte emocional.
E, ainda assim, dizer que o filme é apenas ruim seria simplista. Existem momentos (e eles são curiosamente frequentes) em que a obra alcança um tipo de encanto involuntário, aquele que faz a audiência rir sem que essa tenha a intenção de rir. A cena em que Carla simplesmente liberta aves de uma gaiola, a coreografia que parece ensaiada no dia anterior à filmagem, os cortes abruptos que desorientam a continuidade, tudo isso compõe um tipo de humor involuntário tão forte que o título muitas vezes aparece em listas de filmes cult trash brasileiros.
Esse humor involuntário, mais do que valorizar o filme, revela uma verdade sobre ele: Cinderela Baiana é, ainda hoje, um estudo de caso. Se o objetivo era transformar a trajetória de uma dançarina popular em narrativa cinematográfica de qualidade, o resultado falhou em todos os níveis. Mas se o que importa é olhar para o filme como um artefato cultural que, por falhas técnicas e narrativas, gerou um fenômeno cult — então a obra entrega material de sobra para conversa, riso e reflexão sobre o que significa fazer cinema no Brasil, mesmo quando a estrutura narrativa, técnica e emocional estão desalinhadas.
Cinderela Baiana (1998 / Brasil)
Direção: Conrado Sanchez
Roteiro: Conrado Sanchez, Antônio Polo Galante
Com: Carla Perez, Perry Salles, Alexandre Pires, Lázaro Ramos, Josevaldo Oliveira, Fábio Vidal
Duração: 85 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Cinderela Baiana
2026-03-18T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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