Romeu e
Julieta se conheceram em uma festa, se apaixonaram e vão enfrentar uma
tragédia anunciada em suas relações, mas vão lutar com todas as forças para vencer a batalha. Não, essa
storyline não se trata da peça famosa de
Shakespeare, mas de um
filme francês sensível que conquistou muitas plateias por onde passou. Sensível, poético e emocionante, sem cair no exagero da emoção em nenhum momento. E como o tema, poderia facilmente se transformar em um "dramalhão". Mas, com inteligência,
Valérie Donzelli apenas anuncia que
A Guerra está Declarada.
A
guerra que é
declarada é do casal contra o
câncer de seu único
filho, ainda pequeno que os fará praticamente se internar junto no hospital. A inteligência do roteiro está em nos dar essa rotina aos poucos. Primeiro vemos uma cena no futuro de
Julieta no hospital com Adam já grandinho, que já deixa clara a situação. Depois retrocedemos ao primeiro encontro dos dois em uma boate agitada. Vamos acompanhando o namoro, o casamento, o
nascimento e primeiros problemas com o pequeno
bebê. Adam sempre chorou demais, já deu indícios de que algo não era normal. E em vários momentos,
Valérie Donzelli introduz uma imagem enigmática de células pulsando, como se a má formação fosse sendo construída em paralelo ao que acompanhávamos no lado de fora do corpo.

A estrutura não segue o padrão hollywoodiano de acontecimentos, não temos um ponto de ataque aos quinze minutos, por exemplo, somos convidados a acompanhar uma vida. Uma vida difícil e ao mesmo tempo leve.
Romeu e
Julieta sempre foram leves, encarando a vida de uma maneira simples, mas nunca inconsequente. Até por isso, temos vários clipes durante a projeção. Uma forma de acelerar a passagem do tempo, mas também uma
harmonia estética com o perfil do
casal. Há momentos ímpares nesse sentido como quando ele está indo de trem ao seu encontro em Marselea, e ambos cantam a mesma música, tendo uma fusão de imagens sobrepostas dos dois rostos. Ou as esperas no
hospital. E ainda momentos engraçados como
Romeu e um amigo pintando o apartamento.
A Guerra está Declarada é especial sobretudo porque tem a alma do casal
Valérie Donzelli e
Jérémie Elkaïm. Além de interpretarem o
casal protagonista, ela dirige e ambos assinam o roteiro. É um
filme de intimidade, de um momento bastante particular, de um
bebê, e ser feito em família provavelmente ajudou na verossimilhança que vemos em tela. Tudo é muito honesto, forte, exala
amor e sofrimento ao mesmo tempo. Mesmo o pequeno Adam tem uma participação fundamental, o
bebê ator
César Desseix consegue nos passar sua pureza no olhar e nos deixar ainda mais aflitos a cada novo exame. Ou pelo menos, roteiro e direção nos fazem acreditar nisso, que ali está um inocente sofrendo, criando uma compaixão necessária e uma torcida pela vitória.
Há ainda a opção da voz over de dois narradores distintos, primeiro um homem depois uma mulher, que dão um tom de crônica cotidiana a história. Eles surgem em momentos diversos como comentaristas da vida real, quase sendo didáticos, foto legendas das cenas que estão aparecendo. Isso nos passa a ideia de que aquela é uma história que já aconteceu, uma
recordação, o que nos tira um pouco da emoção exacerbada e nos devolve um senso crítico para a situação. Não há exatamente uma intenção de discutir o
câncer, seus tratamentos e consequências. Mas com essa escolha
Valérie Donzelli e
Jérémie Elkaïm não deixam de provocar o racional do espectador, dando elementos para eles não apenas se envolverem naquela história, mas pensarem sobre ela.

A própria metáfora da
guerra é muito bem aproveitada. Desde a citação literal no diálogo se referindo à Guerra no Iraque à preparação para a luta pela vida de Adam. A maneira como a câmera nos guia, demonstrando os problemas de Adam de andar, de comer, ao vomitar. As inserções das células. As desconfianças de
Romeu. Os diagnósticos da pediatra que parece não se preocupar com nada ao ver os pais de primeira viagem sofrendo com "bobagens". E finalmente, as desconfianças. A cena de
Julieta no corredor do
hospital após a primeira tomografia é uma das mais fortes do
filme. A forma como a câmera sacode junto a ela em desespero nos deixa dentro daquela emoção. Da mesma forma que Adam se ajoelhando e gritando no meio da rua. É o desespero para a posterior preparação onde forças são arrancadas não se sabe de onde.
A Guerra está Declarada é um
filme que nos conduz em uma jornada de almas. Não é simplesmente um filme sobre
câncer. Não é mesmo um
filme sobre a entrega de dois pais, é uma lição de vida. Uma experiência que é passada com honestidade, um senso crítico e emoção na medida certa.
A Guerra Está Declarada (La guerre est déclarée, 20111 / França)
Direção: Valérie Donzelli
Roteiro: Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm
Com: Valérie Donzelli, Jérémie Elkaïm e César Desseix
Duração: 100min.