
Em 2006,
Sacha Baron Cohen surpreendeu o mundo com
Borat, um repórter bem inconveniente. Em 2009, foi a vez de
Bruno, o apresentador de televisão homossexual. Agora ele encarna um
ditador da República de Wadiya, com uma grande diferença para os outros dois: sem a inserção da história na vida real, tirando a reação da pessoa comum e a sensação de falso
documentário. Ainda assim, o estilo permanece com muitas
críticas veladas, algumas sacadas geniais e outras bobagens desnecessárias.
Aladeen é um
ditador sem escrúpulos. Ele faz a sua própria lei onde tudo o que o agrada o cerca e o que o desagrada é enviado para o sacrifício. Tantas atrocidades e o boato de que seu país está produzindo armas de destruição em massa fazem a
ONU convocá-lo para um pronunciamento público. O que ele não sabe, é que pessoas dentro do seu próprio governo tramam contra ele e aproveitam essa viagem aos Estados Unidos para substituí-lo por um
sósia. Aladeen sobrevive ao atentato a sua vida, mas acaba sem barba, perdido em
Nova York e vai precisar de novos amigos para tomar seu lugar e garantir que Wadiya continue sendo uma
ditadura.

Com muitas referências desde Um Príncipe em Nova York até Forrest Gump,
Sacha Baron Cohen costura sua história absurda com o que parece ser mesmo o essencial em sua obra: a
crítica aos Estados Unidos. O sentido do filme
O Ditador acaba resumido no discurso de Aladeen explicando para a América o que é um
regime ditatorial. Essa ironia sutil, mas tão clara ao mesmo tempo é o que faz seu texto ter força. É revelar o que está escondido por trás do véu do
sonho americano, do país das oportunidades e da democracia plena.
Crítica começada em
Borat contra a xenofobia, continuada em Bruno contra a homofobia e a capacidade de se vender à mídia (não esqueçamos dos bebês) e continuada aqui no centro daquilo que eles mais se orgulham: a
democracia.

Por isso, alguns detalhes geniais, fazem do
filme uma obra interessante. Momentos como seus gritos na porta do hotel que chamam a atenção da personagem de
Anna Faris. Ou a transformação da quitanda, chamando a atenção para o detalhe de determinado poster na parede. Ou a cena do avião. Isso sem falar nos comentários no jornal, tentando traduzir os atos do
ditador, que na verdade, eram de seu atrapalhado sósia, sem nenhum sentido
político. Porém, nem isso faz com que os momentos de puro exagero ou piadas sem graça envolvendo
escatologia e
sexo encham nossa tela, cansando ainda mais a imagem do próprio ator que já está desgastada.

Mas, o que pode ser frustrante para alguns em
O Ditador é exatamente a escolha do roteiro de utilizar atores e cenas ensaiadas durante toda a projeção, tirando um
plus que fez dos outros dois algo especial: a espontaneidade das reações verdadeiras. É compreensível a escolha, já que
Sacha Baron Cohen atingiu uma fama tal que é impossível se passar por outro personagem. Assim como a fórmula também já demonstrava sinais de cansaço desde
Bruno e repetir simplesmente o já feito poderia não surtir efeito. O problema é que ele criou história e utilizou atores não para contar uma história engraçada, mas para simular a fórmula anterior, o que a tornou frágil.
Ainda assim, é impossível negar o talento do ator e sua capacidade de se reinventar em cena, seja como ditador ou sósia. Suas expressões, suas tiradas oportunas, mesmo as piadas de mal gosto com a personagem de
Anna Faris, são bem interpretadas. Aliás, a atriz é outra que se sai muito bem como a "garoto com seios", que acaba dobrando o grande
ditador. Destaque ainda para
Ben Kingsley como o assistente Tamir e as participações especiais como
Megan Fox e
Edward Norton.
O Ditador busca algo novo e tenta construir uma
crítica inteligente aos Estados Unidos a partir de uma figura exótica. Mas dá sinais de que
Sacha Baron Cohen precisa mesmo se reinventar, procurando outros caminhos, ou vai cansar seu público.
O Ditador (The Dictator, 2012 / EUA)
Direção: Larry Charles
Roteiro: Sacha Baron Cohen, Alec Berg, David Mandel e Jeff Schaffer
Com: Sacha Baron Cohen, Sayed Badreya, Ben Kingsley e Anna Faris
Duração: 83 min.