Karim Aïnouz foi à Argélia para resgatar suas origens, como diz a sinopse oficial, mas chegando lá, encontrou a jovem ativista Nardjes. Entusiasmado pela força da juventude em luta contra o governo, o cineasta cearense resolveu emprestar sua câmera para acompanhar a moça por 24 horas ao redor de uma manifestação em pleno Dia Internacional das Mulheres.
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Nardjes A.
Nardjes A.
Karim Aïnouz foi à Argélia para resgatar suas origens, como diz a sinopse oficial, mas chegando lá, encontrou a jovem ativista Nardjes. Entusiasmado pela força da juventude em luta contra o governo, o cineasta cearense resolveu emprestar sua câmera para acompanhar a moça por 24 horas ao redor de uma manifestação em pleno Dia Internacional das Mulheres.
O ponto positivo e negativo de Nardjes A. é o mesmo, a escolha do dispositivo de Aïnouz para contar essa história. Ao acompanhar apenas um dia pelo olhar da moça, a obra acaba ficando restrita em relação à situação como um todo. Poucas informações são passadas e todas pelo olhar da ativista. As escolhas do recorte pela manifestação também.
Ao mesmo tempo a proposta de Karim Aïnouz não parece mesmo ser a de explicar os conflitos na Argélia, as reivindicações dos jovens vs as ações do governo. O filme parece apenas querer pulsar esse entusiasmo e esperança de mudanças. Como se o cineasta quisesse nos passar o que o fez escolher retratar esse momento.
Olhando por esse viés, o filme cumpre seu objetivo com louvor. Há paixão em cena. Há uma onda que contagia e nos faz querer buscar também as ruas, exigir nossos direitos, lutar contra o estabelecido. A montagem parece nos devolver um pouco desse frescor que vamos perdendo após tantas situações adversas.
Para quem queria fazer um filme biográfico, Karim acaba saindo completamente de cena para dar lugar ao outro. Mas, curiosamente, ao fazer isso, acaba se colocando mais no filme do que se falasse sobre sua própria vida. Em sua escolha por resgatar esse frescor juvenil, o cineasta parece estar buscando esse espírito guerreiro em si mesmo. Fica implícito, também, um paralelo com a própria situação do Brasil.
Nardjes A. tem uma força inegável, ainda que possa parecer superficial. O documentário observativo deixa para o público a reflexão. E há elementos nele para isso, ainda que por um recorte tão específico. Uma obra que ecoa em nossa mente muito tempo após a sessão.
Filme visto no 9º Olhar de Cinema de Curitiba
Nardjes A. (2020, Brasil)
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz
Duração: 80min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Unifacs e da Uniceusa. Atualmente, faz parte da diretoria da Abraccine como secretária geral.
Nardjes A.
2020-10-13T18:33:00-03:00
Amanda Aouad
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