Como superar um trauma? Em determinado momento do filme de Ivan Tverdovskiy, uma personagem grita com outra que insiste em dizer que eles “precisam se lembrar do que aconteceu”. Não, eles não querem lembrar, querem recomeçar a vida, encontrar novos amores, fazer novos filhos, seguir em frente.
Conferência
Como superar um trauma? Em determinado momento do filme de Ivan Tverdovskiy, uma personagem grita com outra que insiste em dizer que eles “precisam se lembrar do que aconteceu”. Não, eles não querem lembrar, querem recomeçar a vida, encontrar novos amores, fazer novos filhos, seguir em frente.
O roteiro parte de um atentado real que ocorreu em um teatro em Moscou no ano de 2002 para imaginar um reencontro dezessete anos depois de parte dos sobreviventes. Boa parte da trama acontece dentro desse teatro com as personagens narrando o que lembram do dia fatídico. E é instigante como, por mais que tudo pareça verborrágico, há uma delicadeza na construção da imagem.
Em especial, há um compasso de espera na montagem. Planos longos, imagens contemplativas, muitos momentos de silêncio constroem uma sensação de angústia e desconforto que ajudam na imersão da obra. De alguma maneira nos sentimos ali, juntos com os reféns, relembrando o momento traumático.
Há uma construção de suspense também em torno da protagonista, agora uma freira, que estava entre os reféns junto a sua família e organiza o encontro como se fosse uma missão especial. Sua relação conturbada com a filha demonstra que há algo a mais ali, que só será revelado mais a frente, ressignificando alguns acontecimentos.
Conferência é uma obra entre o desejo de superar um trauma e o falso determinismo de que esse trauma não pode ser superado. É curioso que um atentado terrorista muçulmano acabe reforçando a culpa judaico cristã na representação de uma protagonista freira que se veste de preto de uma maneira que lembra as burcas. Nuanças que parecem afastar, mas, no fundo, aproximam agressor e vítima.
Filme Visto no 10º Olhar de Cinema de Curitiba.
Conferência (Rússia, Estônia, Reino Unido, Itália, 2021)
Direção: Ivan Tverdovskiy
Roteiro: Ivan Tverdovskiy
Duração: 129 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Conferência
2021-10-09T15:00:00-03:00
Amanda Aouad
cinema europeu|critica|Festival|Ivan Tverdovskiy|OlhardeCinema2021|
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