A ideia de universos paralelos não é nova. Nem mesmo uma moda incentivada pela Marvel que tem explorado bem o tema em seu universo cinematográfico. A vida é construída baseada em possibilidades. A cada decisão que tomamos, diversas outras deixam de ser tomadas e nos dariam rumos diferentes em nossas vidas. Quem nunca se pegou pensando “e se”?
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Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo
Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo
A ideia de universos paralelos não é nova. Nem mesmo uma moda incentivada pela Marvel que tem explorado bem o tema em seu universo cinematográfico. A vida é construída baseada em possibilidades. A cada decisão que tomamos, diversas outras deixam de ser tomadas e nos dariam rumos diferentes em nossas vidas. Quem nunca se pegou pensando “e se”?
“Se” é algo que, quanto mais a gente pensa, mais angústia gera, porque não sabemos exatamente no que daria cada decisão diferente que tomássemos em nossas vidas.
“Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” parte de outro extremo: e se nós pudéssemos vislumbrar todas as possibilidades possíveis de nossas vidas? Qualquer mente sã se perderia diante da própria sensação de infinitude.
Mas a obra de Dan Kwan e Daniel Scheinert, na verdade, quer discutir algo ainda mais complexo: o sentido da vida e a definição de felicidade.
Evelyn Wang é o que o senso comum pode chamar de fracassada. Um marido que quer se divorciar, uma lavanderia falida, um pai de quem tem medo e que nunca a aceitou plenamente e uma relação conturbada com a filha que não se conforma de que seja lésbica. Ainda assim, ela parece ter algo que pode salvar os múltiplos universos de um ser que quer destruir tudo.
Falar qualquer outra coisa sobre o enredo é dar spoilers. O roteiro da dupla de diretores trabalha exatamente com o ponto de vista da protagonista, que vai sendo informada aos poucos do que está acontecendo. Então, prepare-se que coisas estranhas irão acontecer a todo momento. E Dan Kwan e Daniel Scheinert não têm medo de flertar com o ridículo.
A piada está liberada assim como as referências cinematográficas que se tornam um plus para os cinéfilos. É divertido perceber cada brincadeira com Matrix, Clã das Adagas Voadoras, 2001, Ratatouille, História sem fim, o próprio Doutor Estranho, entre outros.
Nos dá uma pista também para o sentido da obra, que é uma reflexão sobre a vida através da ferramenta cinematográfica. Uma forma de pensar e discutir possibilidades através de dispositivos, por vezes óbvios, por vezes tolos, mas que acabam nos fisgando através de camadas que vão se tornando cada vez mais profundas.
É uma experiência fílmica com escolhas curiosas no roteiro e montagem que vão ampliando nossa mente de maneira satisfatória. O trabalho de direção de arte e efeitos também chama a atenção, em especial pela maneira como se diferencia, mas traz links, entre as diversas realidades expostas em tela. Destaque ainda para a atuação do trio principal que consegue mudar as expressões faciais e corporais a cada versão de sua personagem, não deixando dúvidas da mudança de realidade acessada.
No final, temos uma obra divertida e que nos faz refletir sobre nossa própria existência. É só estarmos abertos a proposta sem medo do ridículo. A vida pode ser ridícula, divertida ou sofrida, vai depender de como a encaramos e se embarcamos em sua proposta.
Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo (Everything Everywhere All at Once, 2022 / EUA)
Direção: Dan Kwan e Daniel Scheinert
Roteiro: Dan Kwan e Daniel Scheinert
Com: Michelle Yeoh, Stephanie Hsu, Ke Huy Quan
Duração: 140 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo
2022-08-16T16:23:00-03:00
Amanda Aouad
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