Foi-se o tempo em que o sonho de toda mulher era encontrar um bom homem e casar na igreja de vestido branco, véu e grinalda. As lutas feministas, as discussões religiosas, as mudanças de interesses e conceitos ampliaram as possibilidades e visão de mundo. Isso não quer dizer que ainda não existam mulheres com tal sonho ou que isso seja errado, retrógrado. Pelo contrário, ainda faz parte do imaginário popular em um país que, apesar de laico, ainda tem maioria católica.
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Marcelo Gomes
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Paloma
Paloma
Foi-se o tempo em que o sonho de toda mulher era encontrar um bom homem e casar na igreja de vestido branco, véu e grinalda. As lutas feministas, as discussões religiosas, as mudanças de interesses e conceitos ampliaram as possibilidades e visão de mundo. Isso não quer dizer que ainda não existam mulheres com tal sonho ou que isso seja errado, retrógrado. Pelo contrário, ainda faz parte do imaginário popular em um país que, apesar de laico, ainda tem maioria católica.
Para Paloma, agricultora do interior do Ceará, esse sonho ainda é forte. Mesmo vivendo harmoniosamente com seu amado Zé e tendo sua filha Jennifer, esse ato simbólico faz sua vida ficar incompleta. Principalmente, porque, para ela, isso não parece permitido. É encarado como uma piada para alguns, um afronta para outros. Paloma é uma mulher trans e, como tal, não é reconhecida pela Igreja Católica pelo gênero com o qual se identifica. Para a instituição religiosa ela é um homem e dois homens não podem se casar na igreja.
Baseado em uma história real, o filme de Marcelo Gomes, roteirizado em parceria com Armando Praça, é extremamente sensível ao conduzir a trama de maneira simples, natural e sincera. Ainda que fale em sonho e construa uma narrativa que nos pareça possível sonhar, não há uma negação da realidade, do preconceito, dos medos de pessoas que ainda não são compreendidas em sua totalidade, mesmo por aqueles que parecem aceitá-las e dizem amá-las.
A câmera de Gomes não se furta em nos apresentar, com delicadeza, a personagem título e suas características desde o princípio. A atriz Kika Sena se entrega em cena a cada gesto e expressão que nos aproximam cada vez mais de Paloma. Como quando ela pede para bordar o seu nome no véu e a noiva debocha dizendo que ela jamais poderia casar assim. Ou quando o patrão insinua que dar trabalho a ela é quase um favor ou quando o padre, após elogiar sua fé, diz que não é permitido fazer seu matrimônio.
Há um contraste também na construção daquela vida aparentemente heteronormativa quando a outra mãe de Jenifer não pode ficar com ela e só resta a Paloma deixar a menina em um bordel para ir trabalhar. Ou quando a mãe de outra criança impede que elas brinquem em um domingo em família no clube e Paloma prefere simplesmente brincar com ela. O preconceito existe, as dificuldades existem, mas Marcelo Gomes escolhe algumas vezes nos pedir para fechar os olhos, tal qual a prostituta pede à pequena Jenifer quando esta passa pelos corredores do bordel. É como se, por alguns instantes, nos fosse permitido não ver os preconceitos de uma sociedade transfóbica e sonhar, tal qual Paloma.
Chama a atenção também a construção díspar dos arcos de Zé e do motorista do caminhão. Ambos vão apresentando camadas que quebram qualquer perspectiva ou estereótipo do homem cis hétero. Chama a atenção a maneira como as escolhas de Marcelo Gomes nos fazem ver e temer um possível abuso, mas vai reconfigurando isso. Ao mesmo tempo em que frustra a ideia de um homem desconstruído em pequenas atitudes machistas ao decorrer da trama, inclusive a insistência de não querer se casar.
Desde Cinema, Aspirina e Urubus, Marcelo Gomes demonstra sensibilidade para reconstruir imaginários. Com Paloma, ele nos presenteia mais uma vez com uma história simples e intensa ao mesmo tempo, apresentando mais uma face contraditória de um país que se esconde em diversos conceitos e preconceitos do que é uma sociedade, uma família e uma comunidade religiosa.
Paloma (Brasil, 2022)
Direção: Marcelo Gomes
Roteiro: Marcelo Gomes, Armando Praça
Com: Kika Sena, Samya de Lavor, Suzy Lopes, Buda Lira
Duração: 104 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Paloma
2022-11-10T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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