“Eu sou a vingança.” Assim o Batman de Robert Pattinson se apresenta em sua primeira aparição no filme de Matt Reeves. Acostumados a ouvir “Eu sou o Batman”, essa mudança não deixa de chamar a atenção. E a escolha será um dos plots da trama que discute, entre outras coisas, a natureza humana.
The Batman
“Eu sou a vingança.” Assim o Batman de Robert Pattinson se apresenta em sua primeira aparição no filme de Matt Reeves. Acostumados a ouvir “Eu sou o Batman”, essa mudança não deixa de chamar a atenção. E a escolha será um dos plots da trama que discute, entre outras coisas, a natureza humana.
Vingança não é a mesma coisa que Justiça, e essa, sempre foi uma diferença sutil entre os heróis da Marvel e da D.C. Este segundo grupo que, não por acaso, forma a Liga da Justiça, sempre teve uma construção mítica sobre-humana que remete literalmente a origem de semi-deuses dos heróis. Ao contrário do estúdio rival que sempre trabalhou mais com heróis humanos.
De qualquer maneira, o homem morcego sempre foi o mais humano dos heróis da D.C., que fez do medo sua ferramenta propulsora e construiu sua trajetória nas sombras de uma Gotham doente, com vilões igualmente doentios. Não por acaso Batman é a história mais explorada do estúdio. Nos aproximamos dessa dor, desse medo de enlouquecer, dessa sensação de não-pertencimento. Desse desespero por fazer o que é certo, ao mesmo tempo em que duvidamos de nosso discernimento sobre o que é certo.
O filme de Matt Reeves maximiza essas sombras, construindo uma atmosfera hostil e uma fotografia praticamente de penumbras que tornam quase palpáveis o inconsciente das personagens. Ao contrário das cores gritantes do lamentável filme de 1995, o Charada aqui traz uma perspectiva dark que assusta, em especial, pela aparente fragilidade de sua personagem. E por sua perspectiva de vingança, não se considerando exatamente um vilão. Há camadas nesse jogo entre corrupção e crime em Gotham que tornam todo o universo ainda mais rico e fascinante.
Chama a atenção no roteiro a quase ausência do personagem Bruce Wayne. Pattinson passa a maior parte das quase três horas de projeção na persona do homem morcego, reforçando a perspectiva de que o multimilionário seja mesmo o disfarce daquele homem dilacerado que busca ser um herói. Mas aqui nem mesmo sabe direito ainda como fazer para isso. Em especial, quando a memória do seu pai é colocada em check. Batman aparece em reconstrução em tela, em busca de seus valores e seu destino.
A trama de suspense com a investigação dos crimes em sequência lembra muito a estrutura dos filmes noir. Inclusive por sua atmosfera sombria e a ambientação do submundo. E claro, a femme fatale Selina, a mulher gato também em reconstrução. Zoë Kravitz consegue trazer camadas mais instigantes a personagem que em nenhum momento soa como vilã. Uma mulher misteriosa, sofrida, mas com perspectivas. A ação é movida pela curiosidade, pela investigação e pela tensão em cena, mas traz também bons momentos de batalhas, construindo um filme envolvente que não cansa, apesar de sua duração.
Apesar de todos os reboots, The Batman acaba trazendo uma nova perspectiva para esse herói quase anti-herói dos quadrinhos. Um filme com fôlego para nos fazer esquecer os anteriores e embarcar nessa nova jornada com vontade de conhecer mais sobre o que esse universo pode nos oferecer.
The Batman (2022 / EUA)
Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves, Peter Craig
Com: Robert Pattinson, Zoë Kravitz, Paul Dano
Duração: 177 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Unifacs e da Uniceusa. Atualmente, faz parte da diretoria da Abraccine como secretária geral.
The Batman
2023-01-13T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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