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Assassinos da Lua das Flores
Assassinos da Lua das Flores
Existem diretores que se tornaram cânones do cinema mundial, mas nem por isso devemos aplaudir tudo que fazem. Seus filmes também merecem uma análise pela obra em si. É gratificante, no entanto, ver que aos 81 anos, Martin Scorsese continua nos entregando algo que traz muito de suas marcas, mas também soa como novidade.
Rei dos filmes de gângsters, o diretor traz em Assassinos da Lua das Flores algo que subverte esse gênero e o western ao colocar o ponto de vista na vítima. Os povos originais, verdadeiros donos da terra que durante muito tempo foram os vilões dos filmes de Hollywood. E o mais interessante é que, para isso, não precisa vilanizar em excesso os antigos mocinhos.
O personagem de Robert De Niro é desprezível, mas tem camadas que o torna instigante, mesmo que torçamos pela sua derrocada. Já o personagem de Leonardo DiCaprio é ainda mais complexo. Seu amor pela esposa, seu medo e obediência ao tio e sua vontade de se dar bem se digladiam dentro dele, sendo expresso em sutilezas.
Já a personagem de Lily Gladstone não é uma vítima indefesa, por mais que sofra calada boa parte da narrativa. Sua força está também na resiliência e na busca por justiça para seu povo. Sabendo que essa obra é baseada em uma história real, traz ainda mais brilho e força para ela.
São mais de três horas de projeção, talvez não precisasse tanto, mas cada segundo é um deleite cinematográfico. A maneira como a câmera busca essas personagens, a organização dos planos, o tempo da montagem, o ritmo dos atos, apresentando cada ponto a seu tempo. Tudo nos envolve e não vemos o tempo passar. É de fato uma obra de arte.
E como uma boa obra de arte, nos faz refletir sobre diversos aspectos da nossa relação no mundo. Há muitas camadas também no roteiro de Eric Roth e Scorsese que nos fazem embarcar naquela história e sentir na pele aquelas dores. Refletir sobre um passado que nem é nosso, ainda que, aqui, na América do Sul, os povos originais também ainda sofram com questões parecidas.
E não deixa de ser impactante que algo tão particular possa ser tão universal e nos tocar também em nosso particular. Nos faz pensar sobre a relação com o outro, na incapacidade, muitas vezes, de entendermos culturas e pontos de vistas diversos. Na busca desenfreada por dinheiro e poder. Nas relações de afetos. Naquilo que realmente importa para nossas vidas.
Assassinos da Lua das Flores é daquelas obras que já chegam com selo de obra-prima. Não apenas pelo peso do cineasta que assina e sua trajetória, mas por percebemos que tem características que nos fazem classificar como um dos grandes trabalhos de sua carreira. Uma pena que não receberá o que merece nas premiações que estão por vir.
Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon, 2023 / Estados Unidos)
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Eric Roth, Martin Scorsese
Com: Leonardo DiCaprio, Lily Gladstone, Robert De Niro
Duração: 206 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Assassinos da Lua das Flores
2024-02-08T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
critica|drama|faroeste|Leonardo DiCaprio|Lily Gladstone|livro|Martin Scorsese|oscar 2024|Robert De Niro|
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