Home
animacao
aventura
Chloe Grace Moretz
critica
Eugene Lee Yang
infantil
livro
Nick Bruno
oscar 2024
Riz Ahmed
Troy Quane
Nimona
Nimona
Arquétipos são construções tal qual suas histórias, seus feitos, sua jornada. Está um pouco no inconsciente coletivo essa ideia de que o heroísmo não é feito só de atitudes, mas também conta sua origem. Um herói grego, por exemplo, é um semideus, filho de um humano com um dos deuses do Olimpo. Quando essa “regra” é quebrada, no entanto, o que faz um herói ou um vilão pode ser, simplesmente, um ponto de vista.
Em um mundo que mistura conceitos medievais com futuristas tecnológicos, Ballister é esse homem que vai quebrar as regras. Primeiro plebeu a ser consagrado um cavaleiro da rainha, entrando para o clã dos protetores do reino contra monstros que vivem na floresta. No dia da cerimônia, no entanto, sua espada solta um raio que mata a rainha, tornando-o um regicida procurado. Agora ele só pode contar com a ajuda de Nimona, um ser metamorfo que também é temido por todos.
A maneira como o roteiro apresenta Nimona é bastante instigante. É apenas uma menina, com uma certa empolgação, deslumbrada com a possibilidade de ser alguém importante, mesmo que esse alguém seja o vilão da história. Aos poucos, vamos aprofundando as camadas e nos surpreendendo com sua história e tudo que carrega por trás daquelas máscaras. Esse é um dos pontos fortes do filme que nos faz questionar a todo momento o conceito de humanidade e os preconceitos com o diferente.
Tememos o que não conhecemos. Isso é fato. Manter a realidade estabelecida, mesmo que não seja tão boa, é uma segurança confortável. Questionar regras é perigoso. Por mais que tenhamos impulsos de mudança, queremos o que já está ali. Sem saber que, muitas vezes, no novo, o diferente, pode ser melhor. Ninguém ali no reino parece ter disposição para questionar o estabelecido, nem mesmo em tentar entender o que tem por trás daqueles muros. O que é passado pelo controle é aceito.
A trama nos faz refletir também sobre as fake news, a maneira como a sociedade pode ser manipulada por informação com enquadramento tendencioso, inclusive em tempos de AI. Afinal, que é a verdade? Até que ponto uma imagem pode ser a prova de algo? Uma mentira contada diversas vezes por gerações, pode se tornar verdade? Como são construídas as lendas e mitos? São questões que vão sendo trabalhadas nem precisar de didatismo ou exposição em excesso. Tudo é bastante orgânico e coerente. Mesmo os clichês, como quem está por trás de um certo acontecimento, se torna fluido e crível.
A direção de arte também chama a atenção, misturando elementos medievais com futuristas. As armaduras, estrutura do reino, mescladas com objetos tecnológicos funcionam bem na construção daquele universo fílmico. O ritmo da aventura também ajuda nessa construção entre passado e futuro, nos envolvendo durante a projeção e sendo capaz de nos surpreender, emocionar e divertir.
Destaque ainda para a maneira com a qual o roteiro trabalha com a diversidade, trazendo o amor homoafetivo entre dois cavaleiros de maneira sensível, naturalizando a situação por mais que exista um ou outro indício de preconceito. É curioso também a maneira como esse tema tem reverberação no passado também, de maneira sutil, mas que nos faz pensar nas metáforas também do que representa Nimona, sua ameaça e sua capacidade de se transformar.
Baseada em uma webcomic, o projeto de Nimona ficou no limbo por algum tempo, após o fechamento da Blue Sky Studios. Uma pena que a Disney não tenha tido a visão e sensibilidade para mantê-la, mas ainda bem que a Netflix resgatou-a junto com o estúdio independente Annapurna Pictures. Uma obra que nos faz pensar ao mesmo tempo em que diverte, quebrando preconceitos e marcando a história da animação mundial.
Nimona (Nimona, 2023 / Estados Unidos)
Direção: Nick Bruno, Troy Quane
Roteiro: Nick Bruno, Troy Quane, Marc Haimes, Keith Bunin
Voz: Chloë Grace Moretz, Riz Ahmed, Eugene Lee Yang
Duração: 101 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Nimona
2024-02-29T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
animacao|aventura|Chloe Grace Moretz|critica|Eugene Lee Yang|infantil|livro|Nick Bruno|oscar 2024|Riz Ahmed|Troy Quane|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Assistindo Coração de Lutador , o que mais me marcou foi perceber que este não é simplesmente mais um filme de superação esportiva. A obra...
-
Revisitar Matilda (1996) hoje é como redescobrir um filme que fala com sinceridade com o espectador, com respeito e sem piedade cínica. A ...
-
Branca de Neve (2025) surgiu como mais uma tentativa da Disney de traduzir seu legado animado para o cinema em carne e osso e música, mas...
-
Uma Babá Quase Perfeita é o tipo de comédia que nasce de uma ideia prodigiosamente simples e perigosa: um pai divorciado se veste de babá ...
-
Eu preciso confessar: revisitar Querida, Encolhi as Crianças é como entrar numa máquina do tempo. Não só pela estética encantadora dos anos...
-
Revisitar Os Bandidos do Tempo , de Terry Gilliam , é como redescobrir um mapa antigo de aventuras que mistura humor, história e uma imagina...
-
Poucos filmes conseguem, com tanta elegância e tensão contida, transformar um episódio amplamente conhecido da história recente em uma obra...
-
Ratatouille não é apenas um filme de animação sobre um rato que sonha em cozinhar em Paris . Assistir a esse longa é confrontar uma ideia ...
-
Se Enlouquecer, Não se Apaixone (2010), dirigido por Ryan Fleck e Anna Boden , chegou aos cinemas prometendo tratar de saúde mental com l...
-
Fragmentos de memória , sentimentos, sensações. São elementos abstratos difíceis de serem filmados. Talvez esse seja o maior mérito do filme...





