Dias Perfeitos
O conflito é a base do drama, definiu Aristóteles, porém, é possível construir dramaturgia sem um conflito central ou mesmo uma estrutura de curva dramática. Os dramas não-aristotélicos trazem algumas dificuldades de entrada e, principalmente, de síntese sobre o que se trata a trama. Mas quando acessados, se tornam experiências únicas. É o caso de Dias Perfeitos.
Nada de especial acontece na vida de Hirayama, que tem sua função diária de lavar banheiros públicos pelas ruas de Tóquio. Alguns acontecimentos pontuais, com seu colega de trabalho, ou com a dona de um bar que ele frequenta, ou ainda com sua sobrinha. Mas a história não é sobre isso. É sobre sua rotina simples e, talvez, sua especial predileção por ouvir músicas em fitas k7, ler livros de papel ou tirar fotos em máquinas com filmes.
Em um mundo cada vez mais tecnológico e conectado é, no mínimo, curioso ver aquele homem de meia idade com seus hábitos antigos. Como se vivesse em uma época à parte, introspectivo em si mesmo. Tão introspectivo que durante boa parte da projeção nem sequer ouvimos sua voz. As músicas falam por ele, seus sentimentos, suas dores, seus pensamentos. Assim como as imagens do que faz em suas horas vagas. É uma rotina poética diante de uma realidade que parece tão dura da limpeza de banheiros.
É também um alívio. Uma pausa na loucura dos tempos modernos. Um convite à reflexão sobre o que somos e como nos relacionamos hoje em dia. Um mundo de aparências que não consegue acessar o outro de maneira profunda. Todos acham que se conhecem, mas, no fundo, estamos apenas desfilando uma vida ilusória em redes sociais. Embarcando com Hirayama naquele carro, nos sentimos também a parte dessa realidade ilusória.
E está aí a beleza do filme de Wim Wenders. Na poesia da imagem. Na contemplação da vida. Na busca por um sentido para tudo isso que vemos. São duas horas em que mergulhamos em um outro compasso para perceber que, muitas vezes, coisas que fazemos tanta questão não fazem sentido algum. E que a tal da felicidade é algo relativo. Podemos encontrar sentido até mesmo em um escondido jogo da velha.
Dias Perfeitos nos traz esse convite a simplesmente ser. É uma experiência, acima de tudo. Nas escolhas dos planos, na maneira como a música e a estrada se fundem. Nas pausas que os cliques da máquina fotográfica dão. Na exploração minuciosa de cada canto da simples casa do protagonista. Enfim, é uma observação da vida. Como há muito tempo não nos damos ao luxo de parar para observar. Talvez, por isso, seja tão perfeito.
Dias Perfeitos (2023, Japão)
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Wim Wenders, Takayuki Takuma
Com: Reina Ueda, Koji Yakusho, Tokio Emoto
Duração: 125 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Dias Perfeitos
2024-06-04T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
cinema asiático|critica|drama|oscar 2024|Wim Wenders|
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