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Deus e o Diabo na Terra do Sol
Deus e o Diabo na Terra do Sol
Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), dirigido por Glauber Rocha, é uma obra-prima que se mantém relevante e impactante, mesmo após quase 60 anos de seu lançamento. Este filme não é apenas um marco do Cinema Novo, mas também uma análise profunda e crítica da sociedade brasileira, especialmente do sertão nordestino, com suas complexidades e contradições.
Glauber Rocha, um dos mais influentes cineastas brasileiros, cria uma narrativa que permanece atual, explorando temas universais de opressão, fé e resistência. A trama segue Manuel (Geraldo Del Rey), um vaqueiro que, após um desentendimento com um coronel, acaba matando-o e é forçado a fugir com sua esposa Rosa (Yoná Magalhães). A jornada do casal pelo sertão os coloca em contato com figuras icônicas, como Sebastião (Lídio Silva), um pregador messiânico, e Corisco (Othon Bastos), um cangaceiro implacável.
O desempenho de Geraldo Del Rey como Manuel é visceral e autêntico. Ele personifica o homem comum, esmagado pelas forças da injustiça social, mas que ainda busca desesperadamente por uma saída. Yoná Magalhães, como Rosa, traz uma presença poderosa e silenciosa que contrasta com a turbulência ao seu redor. Sua atuação é um pilar de racionalidade e compaixão, fornecendo um contrapeso essencial às ações impulsivas de Manuel.
Othon Bastos, como Corisco, entrega uma atuação memorável que encapsula a brutalidade e a complexidade moral do cangaço. Sua performance é tanto aterrorizante quanto fascinante, destacando-se como uma das representações mais icônicas do cinema brasileiro. Lídio Silva, por sua vez, retrata Sebastião com uma intensidade fervorosa, ilustrando a perigosa mistura de carisma e fanatismo que caracteriza os líderes messiânicos.
A direção de Glauber Rocha é magistral. Ele utiliza a câmera com uma liberdade ímpar, capturando a aridez e a vastidão do sertão com autenticidade. A cinematografia de Waldemar Lima, com seus contrastes fortes e uso inovador da luz natural, reforça a sensação de realismo brutal que permeia o filme. A edição de Rafael Valverde é quase experimental, com cortes abruptos e uma montagem que muitas vezes desafia a linearidade tradicional, criando uma narrativa fragmentada que espelha a desordem e a incerteza da vida no sertão.
Glauber Rocha também faz uso de uma trilha sonora eclética que mescla composições eruditas de Villa-Lobos com músicas populares compostas por ele mesmo. Essa mistura de estilos musicais reforça a dualidade presente em todo o filme, refletindo a tensão entre o sagrado e o profano, o tradicional e o moderno. A música funciona como um coro grego, comentando e reforçando a ação na tela. No entanto, a edição de som, especialmente nas cenas de redublagem, parece deslocada, quebrando a imersão.
Um dos momentos mais marcantes do filme é o confronto entre Antonio das Mortes (Maurício do Valle) e Corisco. Antonio das Mortes, representante das forças repressivas do Estado e da Igreja, é contratado para eliminar os "infiéis". Sua figura imponente e suas ações implacáveis são um lembrete brutal da violência institucionalizada que permeia toda a história do Brasil. O duelo entre Antonio e Corisco é uma cena carregada de tensão e simbolismo, representando a luta eterna entre o poder opressor e a resistência insurgente.
Deus e o Diabo na Terra do Sol é um filme de dualidades. O próprio título já sugere essa dicotomia, que se estende a todos os aspectos da obra. Glauber Rocha explora o conflito entre fé e razão, ordem e caos, esperança e desespero. Manuel oscila entre seguir Sebastião, com suas promessas de redenção divina, e se juntar a Corisco, cuja solução para a injustiça é a violência. Esta dialética é o cerne do filme, questionando a moralidade e a eficácia de ambos os caminhos.
A crítica social é uma constante na obra de Glauber, e Deus e o Diabo na Terra do Sol não é exceção. O filme denuncia as condições de vida desumanas no sertão, a exploração pelos coronéis e a manipulação pela Igreja. É um retrato ferozmente honesto de um Brasil que muitos prefeririam não ver. A abordagem de Glauber, que mistura realismo com elementos de alegoria e simbolismo, torna essa denúncia ainda mais poderosa e universal.
Deus e o Diabo na Terra do Sol é uma peça essencial do Cinema Novo, um movimento que buscou redefinir a identidade cinematográfica brasileira através de uma lente crítica e inovadora. A direção visionária de Glauber Rocha, aliada às performances memoráveis de seu elenco, cria uma experiência cinematográfica que é ao mesmo tempo desafiadora e profundamente recompensadora. Sua capacidade de provocar reflexão e debate até hoje é inquestionável e é um testemunho do talento de Glauber Rocha como cineasta e como pensador.
Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964, Brasil)
Direção: Glauber Rocha
Roteiro: Glauber Rocha
Com: Geraldo Del Rey, Yoná Magalhães, Othon Bastos, Maurício do Valle, Lídio Silva, Sonia dos Humildes, João Gama, Antônio Pinto
Duração: 120 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Deus e o Diabo na Terra do Sol
2024-08-30T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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