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Nosso Sonho
Nosso Sonho
Assistir Nosso Sonho foi como uma viagem no tempo, uma volta aos anos 90, quando Claudinho e Buchecha dominaram as rádios e a TV com seu funk melody. Ver a história desses dois personagens da música brasileira ganhar vida trouxe uma sensação de nostalgia, mas também um olhar crítico e mais próximo sobre a trajetória de vida deles. Dirigido por Eduardo Albergaria, o filme faz um excelente trabalho ao capturar a essência de uma amizade que transcendeu os palcos e as dificuldades da vida na periferia do Rio de Janeiro.
Desde o início, Nosso Sonho estabelece um tom emocional e envolvente, centrado na perspectiva de Buchecha, interpretado por Juan Paiva. O filme mergulha profundamente na relação de Buchecha com Claudinho, vivido por Lucas Penteado, e como essa amizade se tornou uma âncora na vida de ambos. O enredo não apenas celebra os momentos de glória da dupla, mas também não hesita em explorar as sombras e as dificuldades que enfrentaram.
Confesso que estava com uma certa expectativa, aguardando para ver como Albergaria abordaria a história de Claudinho e Buchecha sem cair nos clichês das cinebiografias musicais. Fui surpreendido pela maneira como o filme conseguiu evitar a armadilha de focar apenas na ascensão à fama e nos sucessos musicais. Em vez disso, Nosso Sonho escolhe focar na amizade e nas batalhas pessoais dos protagonistas, particularmente nas lutas internas de Buchecha com seu pai, interpretado por Nando Cunha.
As atuações são, sem dúvida, um dos pontos altos do filme. Juan Paiva traz uma profundidade emocional ao papel de Buchecha que é palpável. Sua performance é autêntica, especialmente nas cenas mais introspectivas, onde ele lida com a pressão de seu pai e as expectativas que ele carrega. Lucas Penteado, por outro lado, ilumina a tela com sua interpretação carismática de Claudinho. Ele captura a energia e a alegria de viver de Claudinho de uma forma que torna impossível não se apaixonar pelo personagem. A química entre Paiva e Penteado é inegável, e isso é crucial para que o filme funcione, pois a amizade entre Claudinho e Buchecha é o coração da narrativa.
Uma das cenas mais marcantes para mim foi a que retrata Claudinho incentivando Buchecha a formar a dupla de funk. Há uma pureza e uma espontaneidade nessa cena que encapsula a essência de sua amizade. É um momento de vulnerabilidade e sonho, onde dois jovens da periferia se permitem acreditar que podem conquistar o mundo. Esse tipo de autenticidade é raro e é um testemunho do talento dos atores e da direção sensível de Albergaria.
Albergaria mostra uma mão firme ao dirigir Nosso Sonho. Ele consegue equilibrar o drama pessoal com os momentos mais leves e alegres da vida da dupla. A escolha de focar mais nas relações pessoais e menos nos clichês típicos das cinebiografias musicais permite uma narrativa mais rica e complexa. No entanto, nem tudo são rosas. O filme por vezes se rende a algumas soluções fáceis e momentos que poderiam ter sido explorados com mais profundidade acabam sendo tratados de forma superficial. Por exemplo, a dinâmica de Buchecha com seu pai poderia ter sido mais desenvolvida, proporcionando um arco mais completo para esses personagens.
Outro ponto que poderia ter sido melhor trabalhado é a inserção das personagens femininas na história. Elas acabam relegadas a papéis secundários e suas presenças, embora importantes, não são suficientemente exploradas. Isso é uma pena, pois teria enriquecido a narrativa e oferecido uma visão mais completa do ambiente em que Claudinho e Buchecha cresceram e viveram.
Visualmente, o filme se destaca. A cinematografia capta com precisão a atmosfera da periferia carioca, com suas cores vibrantes e sua energia única. As cenas dos shows, embora algumas vezes limitadas pelo orçamento, conseguem transmitir a eletricidade das performances ao vivo da dupla. A trilha sonora, é claro, é um deleite à parte, trazendo de volta os hits que marcaram uma geração e contextualizando-os na jornada dos protagonistas.
Nosso Sonho é um filme que celebra a música, a amizade e a resiliência, mas também é uma lembrança das adversidades enfrentadas por aqueles que vêm de origens humildes. É uma homenagem sincera a Claudinho, que teve sua vida tragicamente interrompida, e um tributo ao legado que ele e Buchecha deixaram para a música brasileira.
Nosso Sonho não é perfeito, mas é um filme que se destaca pelo seu coração e autenticidade. Eduardo Albergaria, Juan Paiva e Lucas Penteado entregam uma experiência cinematográfica que emociona, mesmo quando tropeça em alguns aspectos. É um filme que merece ser visto, não apenas pelos fãs da dupla, mas por todos que apreciam uma boa história sobre amizade, superação e a magia da música e do cinema.
Nosso Sonho (2022 / Brasil)
Direção: Eduardo Albergaria
Roteiro: Fernando Velasco, Mauricio Lissovsky, Daniel Dias e Eduardo Albergaria
Com: Lucas Penteado, Juan Paiva, Tatiana Tiburcio, Nando Cunha, Lellê, Clara Moneke, Antônio Pitanga, Isabela Garcia
Duração: 117 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Nosso Sonho
2024-09-13T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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