Home
cinema
cinema brasileiro
critica
documentario
festbrasilia2024
Festival
Festival de Brasília
filme brasileiro
Marcelo Gomes
Criaturas da Mente
Criaturas da Mente
Em cartaz nos cinemas com o filme Retrato de um Certo Oriente, Marcelo Gomes trouxe à abertura do 57º Festival do Cinema Brasileiro uma obra profundamente pessoal, que parte de uma inquietação íntima e se expande em reflexões filosóficas. Criaturas da Mente é uma jornada que explora os mistérios dos sonhos, inspirando-se na pesquisa do neurocientista Sidarta Ribeiro para revelar dimensões ainda não mapeadas do inconsciente.
O cineasta confessa que, durante a pandemia, perdeu a capacidade de sonhar, uma experiência que o levou a investigar a essência dos sonhos e sua relação com a criatividade. Ao encontrar um artigo de Sidarta Ribeiro, Gomes decidiu aprofundar-se nesse universo, associando sua interrupção onírica à impossibilidade de filmar no período. O cinema, para ele, é uma forma de sonhar acordado, uma extensão da arte como expressão do inconsciente. Essa perspectiva dá a tônica de sua obra, um encontro entre ciência, filosofia e poesia visual.
Diretor de obras como Cinema, Aspirinas e Urubus, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo e Era Uma Vez, Eu, Verônica, Marcelo Gomes sempre teve habilidade em transitar entre o real e o onírico. Sua capacidade de traduzir visualmente a alma humana, especialmente de pessoas comuns, confere à sua filmografia marcas únicas. Em Criaturas da Mente isso se reafirma, tendo o poético e o documental coexistindo de maneira fluida.
A pandemia, ao nos forçar ao isolamento, tornou-se um terreno fértil para a introspecção e a reavaliação da existência. Gomes canaliza essa experiência em um mergulho profundo não apenas nos sonhos, mas nas múltiplas formas de se relacionar com o imaterial: fé, rituais, estados alterados de consciência e preconceitos culturais. Sua exploração passa por práticas como o uso da ayahuasca e encontros com a natureza, como no caso do polvo que surge como uma figura simbólica de inteligência e mistério.
O filme combina entrevistas, experimentações visuais e animações que representam sonhos, criando uma experiência imersiva. Essa abordagem nos aproxima tanto do cineasta quanto da visão de Sidarta Ribeiro, revelando a riqueza de interpretações possíveis para aquilo que se manifesta em nosso subconsciente. Gomes, ao retratar sua investigação, nos convida a refletir sobre os limites entre realidade e fantasia, ciência e espiritualidade.
Mais do que um documentário sobre sonhos, Criaturas da Mente é uma provocação sobre a necessidade de nos reconectarmos com o nosso inconsciente, em tempos em que o pragmatismo e a rotina nos afastam de nós mesmos. A obra nos desafia a olhar para dentro e reconhecer que, assim como o cinema, o sonho é uma linguagem universal: um convite ao diálogo entre o que somos, o que imaginamos e o que desejamos compreender. Assim, Marcelo Gomes não apenas nos instiga a sonhar novamente, mas também a valorizar o que há de mais humano em nós: a capacidade de transformar inquietações em arte.
Filme visto no 57º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Criaturas da Mente (Brasil, 2024)
Direção: Marcelo Gomes
Roteiro: Marcelo Gomes
Com: Sidarta Ribeiro
Duração: 84 min.
Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Comunicação e Artes da Unifacs e professora substituta da Facom/UFBA.
Criaturas da Mente
2024-12-03T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
cinema|cinema brasileiro|critica|documentario|festbrasilia2024|Festival|Festival de Brasília|filme brasileiro|Marcelo Gomes|
Assinar:
Postar comentários (Atom)
cadastre-se
Inscreva seu email aqui e acompanhe
os filmes do cinema com a gente:
os filmes do cinema com a gente:
No Cinema podcast
anteriores deste site
mais lidos do site
-
Poucos filmes carregam o peso histórico de Acossado sem estarem aprisionados pelo próprio prestígio. O primeiro longa de Jean-Luc Godard ...
-
Imaculada entende perfeitamente o tipo de filme que deseja ser. Em um período em que o terror religioso voltou a ocupar espaço nos cinemas...
-
Casablanca (1942) é um daqueles raros casos em que o mito não engole o filme . Pelo contrário, ele se sustenta. Revisitar a obra dirigida p...
-
Predador: Terras Selvagens é um daqueles filmes que poderiam facilmente ter dado errado. A ideia de transformar a criatura mais icônica da...
-
É um frescor ver um filme original em uma indústria cinematográfica que parece cada vez mais obcecada por universos compartilhados, franqui...
-
Poucos diretores contemporâneos parecem tão fascinados pela luta do ser humano contra ambientes extremos quanto Baltasar Kormákur . Ao longo...
-
Há sequências que existem porque o primeiro filme fez sucesso. Antes do Pôr-do-Sol , pelo contrário, surgiu porque ainda havia uma história...
-
Há filmes que continuam voltando à conversa pública porque as questões que levantaram ainda não foram resolvidas. Muito Além do Cidadão Kan...
-
Há filmes que parecem deslocados dentro da carreira de seus próprios criadores. Que Droga de Vida é exatamente esse tipo de obra. Quando s...
-
Poucos filmes conseguem desafiar a passagem do tempo da maneira como Cabra Marcado para Morrer faz. O curioso é que isso acontece porque o...





