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Stardust: O Mistério da Estrela
Stardust: O Mistério da Estrela
Stardust – O Mistério da Estrela (2007) é uma pérola do cinema de fantasia que muitas vezes passa despercebida no universo das grandes adaptações literárias. Baseado na obra de Neil Gaiman, que já se consagrou como um dos grandes contadores de histórias contemporâneos com trabalhos como Sandman e Deuses Americanos, este filme traz à tela um conto de fadas diferente. Dirigido por Matthew Vaughn, que depois ficaria conhecido por trabalhos como Kick-Ass e Kingsman: Serviço Secreto, Stardust mistura humor, aventura e uma dose saudável de escuridão. O resultado é uma obra que, mesmo longe de ser perfeita, conquista por sua originalidade e alma.
A trama segue Tristan Thorn, interpretado por Charlie Cox, um jovem de um vilarejo chamado Wall que, ao tentar provar seu amor por uma garota da aldeia, vivida por Sienna Miller, promete buscar uma estrela cadente que caiu além da muralha que separa seu mundo do reino mágico de Stormhold. Ao atravessar essa fronteira, Tristan logo descobre que a estrela, em vez de ser um simples objeto, é uma mulher chamada Yvaine, interpretada por Claire Danes. O que começa como uma missão simples, rapidamente se transforma em uma aventura cheia de perigos, com três bruxas lideradas pela vilã Lamia (Michelle Pfeiffer) tentando capturar Yvaine para roubar seu coração – literalmente – e assim restaurar sua juventude. Ao mesmo tempo, os príncipes de Stormhold, encabeçados pelo implacável Septimus (Mark Strong), estão em uma corrida pelo trono, e o colar que Yvaine carrega é a chave para essa disputa de poder.
O que diferencia Stardust de outros filmes de fantasia de sua época é, sem dúvida, a mistura de tom que Vaughn consegue imprimir ao longo da obra. O filme não tem medo de ser sombrio em alguns momentos, especialmente nas sequências envolvendo Lamia, que é uma vilã formidável e maliciosa. Michelle Pfeiffer brilha como a bruxa, e a transformação física de sua personagem ao longo do filme, de jovem e glamourosa para uma velha decrépita, é um dos grandes destaques visuais, auxiliada por efeitos práticos impressionantes e maquiagem de alta qualidade. Seu prazer evidente ao dar vida a uma vilã é palpável e traz uma leveza necessária a uma personagem que poderia facilmente cair na caricatura. Ao mesmo tempo, há uma subversão de expectativas na forma como a crueldade de Lamia se mistura com humor, como quando ela se irrita com a falta de habilidades de suas irmãs.
Outro grande ponto de surpresa é Robert De Niro no papel do pirata Capitão Shakespeare. Para quem está acostumado com os papéis mais sérios e intensos de De Niro em clássicos como Taxi Driver e Touro Indomável, vê-lo interpretar um pirata de modos sensíveis e com um segredo hilário é uma mudança radical – e talvez uma das razões pelas quais o filme se destaca. De Niro abraça completamente a natureza cômica do personagem, quebrando seu próprio estereótipo de durão e trazendo uma das performances mais inesperadas de sua carreira. A cena em que ele revela sua verdadeira natureza à sua tripulação é ao mesmo tempo cômica e genuinamente tocante, mostrando que mesmo num universo de fantasia, há espaço para temas de aceitação e identidade.
Charlie Cox, em um de seus primeiros grandes papéis no cinema, traz carisma suficiente para Tristan, ainda que o personagem comece como uma figura meio apagada. Sua jornada de auto-descoberta e evolução ao longo da história – de um jovem ingênuo para um herói confiante – é convincente, embora sua química com Claire Danes como Yvaine seja um tanto inconsistente em alguns momentos. Danes, por outro lado, equilibra bem a vulnerabilidade e a força de Yvaine, mas há momentos em que seu arco emocional parece um pouco apressado, especialmente em relação ao romance com Tristan.
Falando em narrativa, esse é talvez o maior desafio do filme. A adaptação da obra de Gaiman, escrita por Matthew Vaughn e Jane Goldman, consegue capturar o espírito do material original em termos de tom, mas sofre com problemas de ritmo. Em muitos momentos, o filme parece apressado, saltando de uma sequência para outra sem dar tempo para que os personagens realmente respirem ou que o público se conecte de forma mais profunda com eles. Isso é especialmente perceptível na resolução do conflito final com Lamia, que, apesar de visualmente impressionante, parece um anticlímax em termos de desenvolvimento de personagem.
Ainda assim, Stardust tem muitos méritos. A cinematografia é deslumbrante, com paisagens de tirar o fôlego e uma sensação épica que ecoa O Senhor dos Anéis, ainda que sem a mesma grandiosidade. A trilha sonora, composta por Ilan Eshkeri, também ajuda a reforçar essa atmosfera mágica, complementando as cenas de aventura com um toque de melancolia e otimismo, sem nunca parecer exagerada ou intrusiva.
Outro ponto positivo é o humor do filme. Há uma leveza que permeia muitas das cenas, especialmente nos diálogos entre os príncipes fantasmas de Stormhold, que estão presos em um estado de morto-vivo, comentando com ironia sobre os eventos em andamento. Essa abordagem cômica, junto com o tom irreverente de Vaughn, impede que Stardust se leve a sério demais, o que o diferencia de outras adaptações de fantasia que muitas vezes caem na armadilha de se tornarem pomposas.
Se por um lado o filme tem suas falhas, principalmente em termos de ritmo e desenvolvimento de personagens, ele compensa com seu coração. A mensagem final – sobre amor, sacrifício e encontrar seu verdadeiro propósito – é sincera, e o final, ao contrário de muitas produções de Hollywood, é completo e satisfatório. O clássico felizes para sempre aqui soa merecido, sem deixar o gosto amargo de um final forçado ou de uma continuação descarada.
Stardust – O Mistério da Estrela pode não ter o mesmo impacto cultural de outras adaptações de fantasia, mas sua mistura de aventura, romance e humor o torna um filme único dentro de seu gênero. Ele se destaca não por ser uma reinvenção radical do conto de fadas, mas por abraçar suas raízes e subverter algumas expectativas ao longo do caminho. Para os fãs de Neil Gaiman, é uma adaptação que faz justiça ao espírito de sua escrita, e para os amantes do cinema de fantasia, é uma aventura que merece ser revisitada.
Stardust: O Mistério da Estrela (Stardust, 2007 / EUA, Reino Unido, Islândia, Irlanda do Norte)
Direção: Matthew Vaughn
Roteiro: Matthew Vaughn, Jane Goldman
Com: Claire Danes, Robert De Niro, Michelle Pfeiffer, Charlie Cox, Sienna Miller, Rupert Everett, Nathaniel Parker, Peter O'Toole, David Kelly, Mark Heap, Sir Ian McKellen
Duração: 127 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Stardust: O Mistério da Estrela
2024-12-09T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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