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Vento Seco
Vento Seco
Entre os cenários áridos do interior de Goiás e o calor sufocante da sexualidade reprimida, Vento Seco (2020), dirigido por Daniel Nolasco, é um dos filmes mais provocativos do cinema brasileiro contemporâneo. Mais do que um estudo de personagem, o longa é uma exploração corajosa do desejo como força política, do corpo como território de resistência e da erotização como elemento central de um discurso social e estético. É um filme que exige do espectador a coragem de mergulhar em suas provocações visuais e narrativas.
Sandro (Leandro Faria Lelo), protagonista da história, é um homem introvertido, preso em uma rotina que parece sufocá-lo tanto quanto o clima seco de sua cidade natal. Funcionário de uma fábrica de fertilizantes, ele carrega o peso de uma vida desinteressante e solitária, cuja única válvula de escape está em seus encontros sexuais furtivos e em suas fantasias eróticas, que se intensificam com a chegada de Maicon (Rafael Teóphilo), um novato na fábrica. A trama de Vento Seco é simples, quase minimalista, mas não é na narrativa que reside sua força. O filme vive de atmosferas, sensações e imagens que provocam e, por vezes, incomodam.
Daniel Nolasco, que já havia explorado questões LGBTQ+ em documentários como Mr. Leather (2019), entrega aqui uma obra ficcional impregnada de identidade autoral. Sua direção se destaca pela escolha de uma câmera que não apenas observa, mas adota o olhar desejante do protagonista. A parceria com o diretor de fotografia Larry Machado é fundamental nesse sentido. O filme apresenta uma estética luminosa e saturada, marcada por neons e cores vibrantes, especialmente nas sequências de sonho, que evocam um mundo de fetiches e delírios. Assim, Nolasco encontra um equilíbrio único entre o hiperrealismo dos corpos e o onirismo da mise-en-scène.
No entanto, a erotização constante do filme levanta uma questão central: é possível dissociar o desejo sexual da busca por conexões mais profundas? Em Vento Seco, os corpos são celebrados como territórios de liberdade e prazer, mas as emoções e vulnerabilidades dos personagens acabam recebendo menos atenção do que suas pulsões físicas. O filme se constrói quase como uma ode ao tesão, mas muitas vezes negligencia o afeto, que aparece em cenas esparsas e sutis. Um exemplo notável é o momento em que Sandro e Maicon compartilham uma troca silenciosa em um parque de diversões, uma pausa terna em meio ao frenesi sexual.
As atuações no filme são marcadas por uma entrega física impressionante. Leandro Faria Lelo compõe Sandro com uma introspecção que contrasta com a intensidade de seus desejos. Ele é um homem que fala pouco, mas cujo corpo diz tudo: rachado pelo calor, pelo trabalho e pelas emoções reprimidas. Rafael Teóphilo, como Maicon, adiciona uma camada de mistério à história, enquanto Allan Jacinto Santana, como Ricardo, equilibra vulnerabilidade e confiança em suas interações com Sandro. As performances são viscerais e, em muitos momentos, corajosas, especialmente nas cenas de sexo explícito, que, longe de parecerem gratuitas, fazem parte integral do discurso do filme.
Nolasco também utiliza o ambiente de maneira brilhante para reforçar a atmosfera de opressão e desejo. O clima seco e a paisagem árida não são apenas cenários, são extensões do estado emocional dos personagens. A ausência de chefes ou figuras de autoridade na fábrica ressalta uma liberdade ilusória, enquanto os encontros furtivos e os sonhos de Sandro mostram que mesmo em um ambiente aparentemente livre, o controle social e moral ainda está presente.
Apesar disso tudo, o ritmo de Vento Seco, especialmente em sua segunda metade, pode se tornar repetitivo, e a insistência em algumas imagens e ideias acaba diminuindo seu impacto. Há momentos em que o filme parece perder o rumo, caminhando em círculos antes de reencontrar sua força na conclusão. Ainda assim, o final é belo e poético, resgatando o equilíbrio entre desejo e amor e oferecendo uma resolução que, embora não tradicional, é profundamente coerente com a jornada emocional de Sandro.
O gesto político de Vento Seco é inegável. Em um Brasil polarizado, onde corpos LGBTQ+ ainda enfrentam violência e preconceito, um filme que expõe sem pudores a sexualidade e o desejo gay é, por si só, um ato de resistência. Ao mesmo tempo, a escolha de ambientar a história no coração do agronegócio, um reduto historicamente conservador, adiciona camadas de significado à obra. Não é um filme sobre ativismo direto, mas seu impacto político está em sua existência, em sua recusa a pedir desculpas por ser o que é.
Por fim, Vento Seco não é um filme para todos, mas é um filme que desafia. Para quem está disposto a enfrentar suas próprias barreiras, ele oferece uma experiência cinematográfica rara: a de enxergar o mundo pelo olhar de outro, em toda a sua intensidade, beleza e vulnerabilidade. Num país onde o calor e a aridez muitas vezes sufocam, Vento Seco lembra que até no ambiente mais inóspito, a chuva pode um dia cair, lavando tudo e permitindo novos começos.
Vento Seco (2020 / Brasil)
Direção: Daniel Nolasco
Roteiro: Daniel Nolasco
Com: Leandro Faria Lelo, Allan Jacinto Santana, Rafael Teóphilo, Renata Carvalho
Duração: 110 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Vento Seco
2025-01-29T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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