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O Reformatório Nickel
O Reformatório Nickel
O Reformatório Nickel (2024), dirigido por RaMell Ross, além de ser uma adaptação do romance Nickel Boys, de Colson Whitehead, é uma declaração cinematográfica que mergulha nas profundezas da experiência negra na América e a brutalidade sistêmica que a moldou. O filme se passa na década de 1960, uma época marcada por lutas pelos direitos civis, e se utiliza da história de dois adolescentes, Elwood e Turner, para explorar temáticas como opressão, amizade e resistência num ambiente hostil. O que torna essa obra excepcional é a sua narrativa intimista, apresentada sob um olhar subjetivo que transporta o espectador diretamente para a pele dos personagens.
A escolha de Ross pela câmera subjetiva é uma das decisões mais ousadas e inovadoras do filme. A câmera se transforma em um terceiro protagonista, permitindo que o público veja o mundo pelos olhos de Elwood (Ethan Herisse) e seu colega Turner (Brandon Wilson). Essa perspectiva, que visa criar uma conexão visceral com os meninos, é um toque artístico que acentua o horror das situações que eles enfrentam no reformatório. Entretanto, essa escolha também pode gerar momentos de exaustão, onde a falta de variedade de ângulos leva o espectador a um estado de cansaço emocional ao longo da narrativa. O que acredito ser, inclusive, proposital, afinal a jornada dos protagonistas não é nada fácil.
O filme começa com um Elwood sonhador, que se imagina advogado, lutando para alcançar uma educação superior, símbolo de esperança em um sistema que frequentemente desumaniza os negros. No entanto, seu destino se altera drasticamente quando é preso injustamente e enviado ao Reformatório Nickel, um local cuja descrição evoca imagens de terror para os jovens. Ali, a amizade com Turner se torna um contraponto para as complexidades da sobrevivência em um mundo que, em sua essência, se alimenta da dor alheia. A dicotomia entre os ideais esperançosos de Elwood e o ceticismo pragmático de Turner é uma representação poderosa de como a desconfiança é moldada pela experiência vivida.
Um dos momentos mais marcantes no filme é a sequência em que Elwood e Turner tentam se recuperar da opressão do reformatório, sonhando com uma fuga que não apenas representa um escape físico, mas também a esperança de uma vida melhor. A construção desse momento é apoiada pela direção sensível de Ross, que se recusa a explorar o sofrimento de seus corpos de maneira gráfica. Ao invés disso, ele opta por inserir a violência e o horror de forma mais sugestiva, forçando o espectador a sentir a dor através da busca dos protagonistas por liberdade e suas frustrações.
Enquanto a estética do filme é visualmente impressionante, com a fotografia de Jomo Fray elevando a narrativa, é preciso observar que a abordagem estilística controla o ritmo do filme. Em muitos momentos, as referências externas e a inclusão de materiais históricos, como imagens de arquivo, quebram a imersão que o espectador experimentava. Essa fragmentação evidencia o grande desafio que O Reformatório Nickel enfrenta: encontrar um equilíbrio entre a experiência sensorial e a narrativa coesa.
Em resumo, O Reformatório Nickel é um filme que não deixa de instigar reflexões sobre a identidade racial e a resistência, mesmo que algumas escolhas narrativas possam, momentaneamente, diluir a urgência pretendida. O que se destaca, e que é altamente elogiável, é a coragem de Ross ao abordar um tema tão delicado e necessário através de uma lente que é ao mesmo tempo poética e crua. O filme é uma manifestação visual da luta contra a opressão e a mensagem que carrega é poderosa demais para não ser lembrada.
O Reformatório Nickel (Nickel Boys, 2024 / EUA)
Direção: RaMell Ross
Roteiro: RaMell Ross, Joslyn Barnes, Colson Whitehead
Com: Ethan Herisse, Brandon Wilson, Hamish Linklater, Aunjanue Ellis-Taylor
Duração: 140 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Reformatório Nickel
2025-03-13T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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