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O Pagamento Final
O Pagamento Final
Desde o primeiro instante em que a câmera nos apresenta Carlito Brigante já ferido no metrô, sabemos que estamos diante de uma fábula trágica, e Brian De Palma não se furta a mostrar, logo de cara, que seu herói ex-presidiário pagará o preço final. Esse prólogo, amarrado à narração em off de Al Pacino, estabelece o filme não como um conto de glória, mas como um lamento urbano desencantado. A estrutura em flashback, reforçada por uma paleta parcialmente em preto-e-branco cortada por cores, articula aquele contraste entre redenção e fatalidade.
Al Pacino oferece aqui uma das performances mais contidas e nostálgicas de sua carreira: não é o monstro carismático de Scarface, mas um homem que resiste ao impulso de violência com um tique no olhar, sempre em alerta, consciente de que seu código de honra é arma de dois gumes. Há momentos sutis, como o sorriso que não alcança os olhos quando ele discute planos com Gail, interpretada por Penelope Ann Miller que, aliás, imprime na personagem uma doçura frágil que contrasta com as ruas hostis de Nova York. A cena dele, debaixo da chuva, usando uma tampa de lata para proteger a amada assistindo ao ensaio de balé, é um momento raro de poesia visual.
Sean Penn, como Kleinfeld, traça o espelho perverso de Carlito. Um advogado moralmente corrompido que acaba sucumbindo ao próprio submundo. Sua progressão de ar apaziguado para paranoicamente violento funciona como um dedo em riste para como sistemas corruptos infectam todos ao seu alcance. De Palma usa reflexos e planos subjetivos para nos colocar na pele desses dilemas. O espelho correndo ao lado de Pacino na boate Paradise, reflexos distorcidos em superfícies molhadas durante o tiroteio: cada camada da direção condena a redenção do protagonista à inevitabilidade.
Para entender por que O Pagamento Final ressoa como um thriller moderno, é preciso olhar para a cena final no metrô: ela não é apenas violência. É a consumação de um pacto maldito entre personagem e ambiente. A câmera respira junto com Carlito, o barulho do trem ecoando como um destino, enquanto Joe Cocker canta You Are So Beautiful, lembrando-nos de que a honra ainda tem valor, mesmo quando tudo desaba. Essa cena é um resumo da tensão entre o esperançoso e o condenado, melodia e pólvora, tragédia e poesia.
Claro, o filme não é imune a deslizes: ao revelar a conclusão logo no início, perde certo impacto de surpresa. Além disso, há momentos de tom excessivamente melodramático, como o sexo com sobreposição de música pop, que me soou deslocado, tirando do realismo cru que o restante do filme cuida tão bem de cultivar.
No entanto, compreendo que é nessa oscilação entre realismo bruto e momentos líricos que mora a força de O Pagamento Final. Aqui, Brian De Palma revisita o estilo noir gângster de seus anos 70, mas com maturidade: os corredores de metrô são claustrofóbicos, os amigos são feridas sob a pele, o amor é uma brecha tênue, suficiente apenas para prolongar o inevitável colapso. A soberania de Carlito é uma ilusão, e Al Pacino, nessa performance afinada, consegue revelar menos um gângster do que um homem que por um instante acreditou em si mesmo, para só então perceber que o mundo não permite esse tipo de fantasia.
O Pagamento Final (Carlito’s Way, 1993 / Estados Unidos)
Direção: Brian De Palma
Roteiro: David Koepp
Com: Al Pacino, Sean Penn, Penelope Ann Miller
Duração: 143 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
O Pagamento Final
2025-08-08T08:30:00-03:00
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