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Quanto Mais Quente Melhor
Quanto Mais Quente Melhor
Desde o primeiro acorde de sax no trem da Lei Seca até a última frase, Quanto Mais Quente Melhor pulsa como uma comédia que não apenas diverte, mas também brinca com gêneros e expectativas. Sob a direção cirúrgica de Billy Wilder, o filme constrói seu humor com precisão, decupagem e o timing impecável realçados pela montagem de Arthur P. Schmidt e pela fotografia elegante de Charles Lang, e explora recursos visuais e verbais que permanecem surpreendentemente frescos. A habilidade em transformar gags visuais e diálogos sutis, às vezes de duplo sentido, em momentos marcantes revela sua mestria técnica.
O roteiro de Wilder e I. A. L. Diamond se beneficia de uma estrutura engenhosa: dois músicos testemunham um massacre e, para escapar, se disfarçam de mulheres e se juntam a uma orquestra só de mulheres. Essa premissa básica é elevada a um entretenimento sofisticado que abrange comédia, sátira social, crítica de gênero e romance ao mesmo tempo. O humor nasce tanto do absurdo da situação quanto da naturalidade com que os personagens lidam com ela.
Jack Lemmon, como Jerry/Daphne, entrega uma das performances mais sutis já vistas num papel cômico. A transformação de Jerry em Daphne e o risco emocional que isso acarreta quando Osgood, personagem de Joe E. Brown, se apaixona por Daphne, exemplifica a mistura de fragilidade e comicidade. Lemmon equilibra o timing cômico com sensibilidade, criando empatia para além da situação farsesca. Tony Curtis, no papel triplo de Joe/Josephine/Júnior, brilha especialmente no momento em que emula um Cary Grant com precisão encantadora. Essa acrobacia interpretativa é divertida e, ao mesmo tempo, revela a versatilidade de seu ator.
No centro emocional da narrativa está Marilyn Monroe, como Sugar Kane: uma cantora ingênua mas encantadoramente consciente de suas próprias fragilidades. É impressionante que, mesmo com as dificuldades nos bastidores, inúmeras repetições de tomadas por sua falta de pontualidade ou cansaço, ela entrega momentos de pura presença. Sua performance tem um humor sutil, um charme que ilumina a tela e um desabafo emocional que faz Sugar se tornar mais humana do que a típica loira estereotipada da época. O figurino de Orry-Kelly, premiado com o Oscar, ajuda a compor essa imagem icônica: os vestidos colados ao corpo e os brilhos sobre o palco fazem de Sugar uma figura tanto desejada quanto melancólica, como se estivesse sempre a ponto de colapsar.
O momento mais memorável, que é um resumo de toda a inteligência do filme, chega no final, quando Jerry revela ao apaixonado Osgood que é homem, e Osgood responde com serenidade: “well, nobody’s perfect.” Essa cena final é brilhante tanto no texto quanto na interpretação, encerrando o filme com uma piada que é política, romântica e profundamente libertadora.
Mesmo passados mais de sessenta anos, o filme permanece relevante por sua forma de brincar com o duplo sentido, pelo ritmo envolvente e pela forma como subverte estereótipos sem ser ofensivo. Wilder critica os valores americanos da época, como materialismo, moralismo, rigidez de gênero, mas faz isso com humor refinado. Essa combinação é rara: uma farsa que diverte, provoca reflexão e permanece relevante.
Bem, nem tudo também é perfeito. Por vezes, o humor escancara estereótipos da época que hoje podem parecer datados. A dinâmica do roteiro impõe piadas sobre gênero e sexualidade que, ainda que sutis, trazem tensões que não são totalmente resolvidas. E Marilyn, mesmo em sua excelência, não alcança total domínio cômico em algumas sequências por limitações técnicas da produção. Porém, são pequenos detalhes diante da precisão geral do filme.
Em resumo, Quanto Mais Quente Melhor é mais do que uma comédia, é um estudo de personagem, um ensaio sobre identidade, estilo e performance, e um marco na filmografia de Billy Wilder. Seus três protagonistas têm química luminosa. A direção demonstra controle narrativo e sensibilidade para o humor visual e verbal. O filme emociona, provoca risadas e ainda hoje oferece camadas de interpretação. Assistir é revisitar uma comédia que transgride, encanta e resiste ao tempo.
Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, 1960 / Estados Unidos)
Direção: Billy Wilder
Roteiro: I.A.L. Diamond, Billy Wilder
Com: Marilyn Monroe, Jack Lemmon, Tony Curtis, George Raft, Pat O'Brien
Duração: 121 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
Quanto Mais Quente Melhor
2025-08-29T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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