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As Torres Gêmeas
As Torres Gêmeas
Sou sempre cético quando o cinema tenta lidar com feridas coletivas abertas. As Torres Gêmeas, dirigido por Oliver Stone em 2006, tinha essa audaciosa missão: dramatizar uma das manhãs mais trágicas da história recente sem explodir em patriotismo barato nem em manipulação emocional. O roteiro de Andrea Berloff é, nesse sentido, um achado. Mesmo quando escorrega no tom de “novelão”, mantém rigor em retratar o que de fato viveram os policiais McLoughlin e Jimeno. O horror soterrado em concreto, a angústia das esposas e a urgência dos socorristas. É impossível não sentir a queda dos destroços, a chuva de cinzas e o desespero de uma cidade inteira entrando pelo olhar de cada um ali.
Nicolas Cage e Michael Peña transportam o público para dentro daquela cova não com diálogos floridos, mas com olhos que vibram dor, exaustão, esperança. Ficam imóveis o tempo todo e, nas microexpressões, na tensão contida nos músculos do rosto, é que se sustenta o filme. Foi uma escolha ousada: administrar todo o peso dramático num ritmo quase claustrofóbico, sem fugir da opressão. E funciona, mesmo que por vezes o segundo ato escorregue na repetição de melodrama, especialmente quando acompanha as famílias e deixa o ritmo cair.
Visualmente, Stone adota uma câmera contida, fechada: aprofunda a sensação de peso, de calor, de sujeira que sufoca. Mas há momentos em que ele se perde. É um slow motion fora de hora aqui, um passeio de câmera CGI sobre os escombros ali. A essa altura, o lirismo se torna impositivo e o filme esquece que já vendeu emoção desde os ângulos fechados.
Do lado oposto, quando ele dá voz à figura quase mítica do sargento Dave Karnes (Michael Shannon), o filme começa a tropeçar: ritmo lento, simbolismo exagerado, ângulos baixos que o elevam a mito e luzes que quase dissertam em glorificação. Tudo isso faz o resgate parecer mais anúncio de “herói americano” do que a intimidade de um corpo que cavou pela vida.
Ainda assim, o filme acerta ao resistir às teorias conspiratórias que Stone atravessou no passado. Aqui, ele é fiel à história limitada, respeita o realismo, evita transformar o desastre em bandeira. Talvez o maior mérito seja isso: nos lembrar que o horror não precisa ser engolido por efeitos ou por moralismo. Basta ser olhado, com respeito e com os olhos certos.
Nem tudo, claro, funciona. Os flashbacks são visões incômodas de religiosidade incongruente e tiram o público do ato dramático. A maquiagem, pesada e grisalha, remete ao “quase morto-vivo”. Ideia potente, mas aplicada com excesso em certos momentos.
E ainda que o final tente entregar algum tipo de redenção coletiva, fica evidente que este não é um filme sobre 11 de setembro, mas sobre a humanidade capturada em um minuto. É uma homenagem imperfeita, às vezes piegas, às vezes sensorial demais, mas ainda assim concreta. Justiça humana em meio à uma grande tragédia.
As Torres Gêmeas (World Trade Center, 2006 / Estados Unidos)
Direção: Oliver Stone
Roteiro: Andrea Berloff
Com: Nicolas Cage, Michael Peña, Maggie Gyllenhaal, Maria Bello
Duração: 130 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
As Torres Gêmeas
2025-09-10T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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