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O Primeiro Milhão
O Primeiro Milhão
Assistindo a O Primeiro Milhão, o que me chama mais a atenção é como o filme é, acima de tudo, uma fábula moderna sobre ambição e suas armadilhas. E o título em si já entrega sua pulsão central: o primeiro milhão como promessa de redenção, poder ou vingança. Ben Younger, ainda muito jovem ao dirigir esse trabalho de estreia, constrói uma narrativa convincente sobre Seth Davis (Giovanni Ribisi), um jovem com talento para a persuasão, que faz do próprio apartamento um cassino clandestino para ganhar dinheiro rápido. A ambição, nesse contexto, não é apenas um traço de caráter: é quase um organismo vivo que o devora aos poucos.
A escolha de cenas se destaca. A festa selvagem de corretores, a tensão crua daquele bar, o vídeo metafórico de Wall Street. Nada é só para impressionar. Elas delineiam um mundo em que o sucesso se mede em Ferraris e mentiras bem contadas. Nesse universo, a corretora J.T. Marlin não vende ações: vende ilusões. E é fascinante ver como o filme antecipa escândalos reais que viriam anos depois. Uma crítica mordaz sobre a podridão do mercado financeiro, ainda que embutido num thriller ágil.
Giovanni Ribisi, brilhante, dá vida a Seth com uma mistura de vulnerabilidade e ego inflado. O conflito moral surge não em grandes discursos, mas no quase silêncio de um garoto que se pergunta: a que preço eu compro meu primeiro milhão? O pai juiz, autoridade moral incontestável, é o contraponto perfeito: não só representa um padrão ético, mas cristaliza o peso da credibilidade que Seth tenta recuperar.
Há momentos em que o roteiro escorrega, especialmente no ato final, quando a investigação fica corrida e as relações se desfazem, embora o caminho até lá seja bem escrito e eletrizante. Ainda assim, essa pressa não apaga o mérito do ritmo intenso e da dose certa de tensão que realmente segura o espectador.
Se compararmos com Wall Street e O Lobo de Wall Street, O Primeiro Milhão não tem a grandiosidade ou o escárnio cinematográfico de Scorsese, mas sua sobriedade noveleira dirigida por um cineasta iniciante dá ao filme um ar de fábula moral: não é sobre glamour, é sobre colapso emocional. A analogia com o mercado financeiro é menos glamourosa e mais fria, e isso o torna mais humano, incluso em uma ambição mal disfarçada.
O momento mais poderoso, para mim, não é um monólogo inflamado, mas a ausência de ação: quando Seth percebe que sair daquela teia seria mais custoso do que seguir atolado. Esse instante de silêncio, a descoberta de que a ambição pode se fechar em torno dele como uma gaiola, é a chave que transforma O Primeiro Milhão de thriller em tragédia pessoal. Não há fanfarras, apenas uma câmera que observa o protagonista com certo pesar. Aí está a força do filme.
Entre os destaques positivos, a autenticidade da imersão na cultura de Wall Street. Mesmo em 2000, isso soava urgente. O elenco é sólido. Além de Ribisi, nomes como Vin Diesel e Nia Long aparecem com firmeza, sem desviar do foco narrativo. A crítica moral embutida, o ritmo e a tensão emocional são o tripé que sustenta o filme. Como contraponto, uma narrativa um tanto convencional, com um terceiro ato apressado, quando as motivações secundárias perdem densidade.
Em suma, O Primeiro Milhão não é inesquecível. Mas é habilidoso, humano e sincero. Um thriller moral que entrega não apenas o choque dos cifrões, mas também o vazio que fica quando a linha entre ambição e identidade começa a borrar. E isso, hoje, é ouro.
O Primeiro Milhão (Boiler Room, 2000 / Estados Unidos)
Direção: Ben Younger
Roteiro: Ben Younger
Com: Giovanni Ribisi, Vin Diesel, Nia Long, Ben Affleck, Nicky Katt
Duração: 120 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
O Primeiro Milhão
2025-09-26T08:30:00-03:00
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