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O Cliente
O Cliente
O Cliente é um filme onde a tensão jurídica e a urgência emocional se entrelaçam, e ali, na condução de Joel Schumacher, há muito de engenho comercial, de energia rápida, mas também rastros de afeto por personagens reais demais para serem engolidos por maniqueísmos. O garoto Mark Sway, vivido por Brad Renfro, um novato tão cru quanto convincente, surge como o eixo do filme: aquele que testemunha o suicídio de um mafioso e recebe, junto a uma informação proibida, o peso do mundo nos ombros. Renfro carrega a cena com uma naturalidade quase não ensaiada, um verdadeiro achado.
Para protegê-lo, entra em cena Reggie Love, advogada desgastada pela vida, com demônios pessoais, mas que nunca cede à autopiedade. Susan Sarandon dá a ela um frescor emocional sutil, conseguindo gerar empatia sem cair no melodrama primário, o que rende não apenas verossimilhança, mas também justificativa para ter sido indicada ao Oscar. Do outro lado, Tommy Lee Jones encarna Roy Foltrigg com aquele jeito pomposo e caricato de quem se alisa todo ao citar escrituras, como se fosse um pregador político afiado, uma representação eficaz do poder que se veste de moralidade e cansa, ao mesmo tempo, pela caricatura.
A adaptação abre como um thriller de ritmo rápido, cheio de ganchos que o aproximam do espírito direto e urgente dos livros de John Grisham, mas à medida que se aproxima do clímax, as engrenagens começam a ranger. Schumacher deixa escapar a oportunidade de aprofundar o ser humano. Em vez disso, empurra o espectador para cenas em que o garoto e sua advogada transformam-se em detetives de campo improvisados que dão vazão a um desfecho apressado e salientam o efeito dramático acima da coerência.
Isso não anula os méritos. Há momentos, especialmente os que envolvem Renfro e Sarandon, em que o filme respira autenticidade, e temos compaixão genuína por eles. O ambiente de corrupção entranhada e burocracia implacável, cria uma sensação de claustrofobia real e palpável, bem capturada no calor em tela, nos silêncios carregados entre cenas de ação. Mas quando essa atmosfera dá lugar a uma trilha sonora apagada e a reviravoltas que chegam pela lateral, a história perde o pulso que sustentava seu início.
A direção de Schumacher, aqui, é um misto de virtude e falha: sabe conduzir um público, sabe dosar tensão, mas hesita em aprofundar, especialmente no clímax, onde faltam ferramentas como clima sonoro e ritmo interno mais contido para compor a urgência emocional. É um thriller competente, carente de sutilezas, e, por isso mesmo, empolga. Afinal, não é todo dia que um garoto carrega o filme nas costas, e nem sempre somos brindados com uma advogada tão humana quanto forte.
No fim das contas, O Cliente não se torna uma obra-prima, mas também não peca pela falta de personalidade. É um filme que aposta nas performances — sobretudo de Brad Renfro, Susan Sarandon e até Tommy Lee Jones — e equilibra características que o tornam cativante. Ainda que deseje mais consistência, acredito que sua força está na química emocional, não no plot. E é isso que salva o que poderia ter sido apenas mais um suspense jurídico veloz.
O Cliente (The Client, 1994 / Estados Unidos)
Direção: Joel Schumacher
Roteiro: Akiva Goldsman, Robert Getchell
Com: Brad Renfro, Susan Sarandon, Tommy Lee Jones, Mary-Louise Parker, Anthony LaPaglia
Duração: 119 min.
Bacharel em Publicidade e Propaganda desde 2000 e atuante na área, alia técnica e criatividade em tudo o que faz. Cinéfilo de carteirinha, Ari se apaixonou pelo cinema nas madrugadas da TV, onde filmes clássicos moldaram seu olhar crítico e sua veia artística, inspirando-o a participar de um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Histórias são a alma de sua trajetória. Jogador de RPG há mais de 30 anos, decidiu unir sua experiência como roteirista e crítico e sua determinação para escrever livros e materializar suas ideias. Seu primeiro livro, Corrida para Kuélap, está disponível para venda para Kindle. E é só o começo.
O Cliente
2025-09-29T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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