A Vida de David Gale
Quando me sentei para ver A Vida de David Gale dirigi uma pergunta incômoda a mim mesmo: será esse filme uma reflexão real sobre a pena de morte ou um thriller vestido de debate moral? O cineasta Alan Parker, cuja filmografia inclui algumas obras de envergadura, de Mississippi em Chamas a Expresso da Meia-Noite, dirige aqui seu último longa, e o faz carregado de boas intenções, porém evidenciando uma tensão entre discurso político e exigência de entretenimento.
O enredo é simples: David Gale (Kevin Spacey) é um respeitado professor de filosofia e ativista contra a pena capital em Texas. Condenado por assassinato de uma colega ativista, ele solicita uma última entrevista à jornalista Bitsey Bloom (Kate Winslet) nos dias que antecedem sua execução. A partir daí, mergulhamos em flashbacks que remontam sua queda, a destruição de sua reputação, e um plano extremo de revelação. A produção técnica é primorosa: a direção de fotografia de Michael Seresin cria um clima denso, com iluminações sombrias e tons acinzentados que acompanham o desgaste psicológico do protagonista. A montagem se movimenta entre o tempo presente e o passado em queda-livre, reforçando o suspense.
As atuações estão, em sua maioria, acima da média. Kevin Spacey encarna Gale com contida dignidade, um homem que sabe das falhas do sistema e será confrontado por elas. Kate Winslet oferece a Bitsey uma transição convincente de repórter fria a alguém emocionalmente envolvida, e Laura Linney, como Constance Harraway, entrega momentos que sugerem fragilidade e fanatismo na medida certa. Estes três formam um núcleo sólido. E mesmo quando a trama escorrega, o elenco sustenta.
Mas o filme tropeça em suas próprias ambições. A maior fraqueza está no viés tão evidente da mensagem da oposição à pena de morte que Parker opta por deixar muito claro para onde quer levar o público, ao invés de convidá-lo a pensar por si próprio. Essa abordagem direta mina o potencial de ambiguidade que um tema tão complexo como esse pede. O ritmo, em certo momento, arrasta-se, e diálogos, embora incisivos, soam didáticos, quase formalizados como sermões. Essa fusão de thriller e tratado moral não alcança equilíbrio completo: há cenas de suspense bem construídas, mas logo surgem reviravoltas tão marcadas que o filme se entrega ao espetáculo mais do que à reflexão.
Um momento particularmente marcante, e que revela o dilema central, ocorre nos minutos finais, quando a verdade sobre o plano de Gale e Harraway é revelada numa fita de vídeo. Ali, o filme mostra seu trunfo visual e narrativo: a cena é cronometrada, tensa, quase ritualística. A tal revelação sacode, porque coloca o espectador em um lugar incômodo. Em um desconforto intencional que, talvez, sua maior vitória.
Em termos de direção, Parker opta por enquadramentos que contrastam o individual com um sistema opressor. Há um claro jogo de luz-sombra para espelhar culpa e inocência — ou a impossibilidade de distingui-las. Contudo, em momentos, o design visual se torna tão explícito que roça o simbólico demais, reduzindo o vigor da narrativa. O suspense funciona quando nos sentimos engolidos pelo relógio, mas perde fôlego quando a trama se concentra em debates e exposições, exigindo do público que aceite certas improbabilidades para seguir adiante.
O tema é um ponto positivo. Forte, relevante, e ainda hoje provoca questionamentos sobre sistema de justiça, ativismo e ética. A junção de thriller e drama social, mesmo que falha em alguns aspectos, tem momentos de verdadeiro impacto, e o elenco o eleva. Em especial, a construção da expectativa no presente combinada ao passado em colapso é eficaz: sob essa camada, somos convidados a acompanhar uma tragédia anunciada e a nos perguntar até que ponto a justiça pode errar.
Por outro lado, os pontos negativos são claros, a previsibilidade de certas pistas, o tom moralizador que pouco deixa espaço para ambiguidade e a reviravolta final, que poderia ter sido mais sutil, torna-se espetáculo e fragiliza a proposta reflexiva. Em alguns momentos, parece que o filme deseja tanto impactar que esquece de deixar o silêncio e a dúvida respirarem.
Se considerarmos o filme dentro da filmografia de Alan Parker, ele aparece como espécie de encerramento de sua trajetória, embora não em seu auge. Parker, que entregou obras de força como Mississippi em Chamas, aqui revisita novamente temas de justiça e exclusão, mas o faz com menos ousadia formal e mais dependente de estrutura convencional. Em relação aos atores, Spacey assume o papel com maturidade, Winslet já transitava para papéis mais desafiadores e Linney mantém o padrão alto. Porém, nenhum personagem se torna inesquecível, talvez por causa do próprio roteiro que privilegia a ideologia sobre o indivíduo.
No fim das contas, A Vida de David Gale é um filme que merece ser visto. Não porque é impecável, mas porque se propõe a levantar questões espinhosas e o faz com certo vigor. Ele falha em plena execução, mas ganha quando consegue fazer você sair da sala com um peso na consciência e uma interrogação persistente. No limiar entre entretenimento e ideologia, essa obra se ergue com ambição e cai com autoconfiança demais. Ainda assim, vale o debate e o desconforto.
A Vida de David Gale (The Life of David Gale, 2003 / EUA, Alemanha, Reino Unido)
Direção: Alan Parker
Roteiro: Charles Randolph
Com: Kevin Spacey, Kate Winslet, Laura Linney
Duração: 130 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
A Vida de David Gale
2025-12-08T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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