20/06/2009

Sylvester Stallone, um lutador

Estereótipos e preconceitos são armas poderosas da mídia. Difícil lutar contra uma imagem negativa, ainda mais quando esta imagem está associada a filmes banais e interpretações medíocres. Assim, é Sylvester Stallone. O ator pouco acreditado no meio, lutou durante toda a sua carreira por um pouco de reconhecimento. Antes da fama chegou a trabalhar como lanterninha de cinema e em zoológicos, limpando jaulas de leão. Resolveu tentar a carreira como ator e chegou a atuar em um filme pornô barato chamado "o garanhão italiano". Ao assistir uma luta entre Mohammad Ali e um boxeador desconhecido teve uma ideia para um roteiro, escrito em três dias. Assim nasceu Rocky Balboa, o personagem que o consagraria e seria repetido em mais cinco filmes.

A consagração com as dez indicações ao Oscar, o sucesso e a carreira promissora, no entanto, não fizeram de Stallone um ator de reconhecido talento. Falar dele e de seus filmes, tornou-se algo passível de críticas. Durante anos, tive em Rocky a imagem de uma série de filmes menor, melodrama barato. Porém, revendo o primeiro filme, comecei a perceber as nuances de um clássico digno de ser visto, revisto e analisado.

Rock Balboa Sylvester StalloneA começar, não é uma história de um boxeador qualquer. É a história de um homem comum, sofrido, depressivo que só quer uma oportunidade na vida. Boxeador de terceira categoria, desacreditado por todos, Rocky sobrevive como capanga de um agiota, mora em um apartamento de aspecto sofrível e paquera, sem sucesso, a atendente de uma loja de animais: Adrian. Sua sorte muda, quando o campeão mundial de pesos pesado, Apollo Creed, resolve dar uma "chance" a um lutador local como prova de que a América é a terra das oportunidades. A escolha de Rocky é por causa de seu codinome pouco comum: O garanhão italiano. Sim, o mesmo nome do tal filme pornô que Stallone fez no início de carreira. Apollo acha que o nome dará boas notícias na mídia e promete acabar com a luta no terceiro round. Rocky aceita o desafio e o encara como a grande chance de sua vida. Ele sabe que não pode ganhar de um campeão, mas quer, ao menos, lutar bem e resistir aos quinze assaltos.

Traça-se aqui uma trajetória do herói incomum. Mesmo assim, traz semelhanças com o manual criado por Vogler na década de 90, inspirado nas mil fases do herói de Joseph Campbell . Primeiro, Rocky já é um derrotado. Sofre como um condenado, sua vida é um desafio constante. Não é preciso, então, chamá-lo a aventura. Quando a chance de mudar aparece, ele não recusa, está lá de forma intensa, perseverante. Mas, precisa de um mentor. Apesar da trajetória de Rocky em seu primeiro filme ser basicamente sozinha, ele precisa de Mickey que lhe dá dicas, incentivos e apoio. Ele possui um bem desejado, que é Arien e encontra o seu elixir.

As lutas de Rocky, analisando toda a série, são sempre bem parecidas com a trajetória. Ele apanha muito antes de conseguir encaixar um golpe. É a sua sina, ele sempre começa por baixo e busca a superação. Até no sexto filme, quando ele já é um homem aposentado, está por baixo, sem o apoio do filho, viúvo e com dificuldades em seu restaurante.

Rock Balboa Sylvester Stallone
Mas, voltando a Rocky - um lutador, o filme funciona sozinho, por mais que peça uma continuação. Afinal, aquele é apenas o início de carreira de Rocky, todos terminam o filme esperando o que vem depois. De qualquer forma, é a história de um homem e sua capacidade de superação. Impossível não se sensibilizar com ele. Até mesmo a sua amada Arien é totalmente atípica. Uma mulher extremamente tímida que desabrocha aos poucos, ao seu lado.

É, sem dúvidas, um ótimo roteiro. Pode não ter ganho o Oscar na categoria específica, mas ajudou-o a ganhar o de melhor filme e direção. Sua história é redonda, consistente e não cai no piegas. Não apela no final, fazendo uma conclusão coerente, possível e bastante satisfatória. Ou seja, é um bom filme e merece reconhecimento.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

6 opiniões:

Hugo disse...

Stallone não é um grande ator, mas a força do personagem Rocky é impressionante. O filme é original é tudo o que você falou, um ótimo drama que apesar se casa naturalmente bem com o sexto filme.

Abraço

20 de junho de 2009 20:37
Robin disse...

Rock, um lutador, para mim é um clássico. As continuações ficaram muito no esquema da guerra fria, perdem um pouco. O último 6.0, me surpreendeu.

25 de junho de 2009 12:23
Anônimo disse...

Sempre que entro aqui via twitter, acabo ficando bons minutos lendo seus posts mais antigos.
E esse sobre o Rocky Stallone é muito bom. Eu sou suspeito pra falar, porque diferentemente da maioria, eu gosto Stallone (Rocky, Rambo, Cobra e Falcão, entre outros). Não é um bom ator, nem de longe. Mas tem carisma, e entende do "business" hollywood. Além de ter em seu nome vários sucessos como roteirista, (Rambo é roteiro dele, também), sinal que tem talento pra isso.
Amanda, seus textos são muito bons.
Bjo!

4 Elementos - Fábrica de ideias

30 de outubro de 2010 15:21
Amanda Aouad disse...

Obrigada (não sei se Marcelo ou Léo hehe). E concordo, Stallone não é um bom ator, mas tem estrela. Volte sempre. Acabou me mostrando que não tinha respondido aos comentários desse post.

Robin, verdade, as continuações de Rocky foram caíndo e o 6.0 acabou retornando à construção do primeiro.

Pois é, Hugo.

bjs

30 de outubro de 2010 16:08
Luis Tiago disse...

Muito legal, concordo com tudo até os comentários mas só pra saber, o nome da personagem da Talia Shire é Adrian

10 de janeiro de 2011 21:19
Amanda Aouad disse...

Obrigada, Luis, é verdade, achei que já tinha trocado isso antes.

11 de janeiro de 2011 09:08

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