03/10/2009
A visão de dentro - entrevista exclusiva com diretora
A Visão de dentro, da jovem Sophia Mídian, é a atração dessa terça-feira, no Espaço Unibanco. O projeto faz parte da quarta edição do DOCTV e lança um olhar inquietante sobre uma comunidade de sem-terras do assentamento Menino Jesus, na região semi-árida baiana. A proposta é ir além do exposto na mídia, mostrando o MST a partir do seu cotidiano, sentimentos, conquistas e dificuldades de um povo lutador, que encontra na fé e na cultura a força necessária às batalhas da existência.
O documentário ainda não tem data para exibição na TV, mas pode ser conferido pelos baianos nessa terça-feira, dia 06/10, às 20hs. A entrada é gratuita. Em meio à expectativa, conversei com a diretora Sophia Mídian. Confiram:
- Como surgiu a idéia de falar sobre o movimento dos sem terra?
Sophia Mídian: Sou do interior e por mais que estejamos integrados numa vida mais cosmopolita, na raiz houve um contato forte com a roça. Minha família Bagues mesmo tem origem no povoado do Velame e o nome da geração foi inventado e nomeado pelo meu Avô aos filhos, por causa de um apelido que ele tinha. Na infância, vez ou outra ia passear na roça e talvez por isso sinta uma identificação grande com as pessoas simples, mas com firmeza de caráter.
Depois, na faculdade de jornalismo, na Uesb, participava (e ainda faço parte aqui) de um coletivo do Intervozes, que tem por bandeira o direito à comunicação. Uma vez, por meio deste, contribui de alguma forma para uma ocupação do MTD - Movimento dos Trabalhadores Desempregados. Além disso, era do Centro Acadêmico e sempre me movimentava com o grupo, em ações neste sentido.
Por ser jornalista, sinto ter uma dívida com a sociedade, até porque, muito dos nossos pares se envolvem em certos circuitos e deixam de noticiar os dois lados da questão, negando o princípio da imparcialidade. Muito embora, no documentário eu me atenho a revelar a voz do outro, do noticiado, dos sem-terra. Não nego que haja contradições, mas há muita gente necessitada que consegue sair da miséria e trabalhar dignamente num pedaço de chão.
Então, a ideia surgiu do "ímpeto da vontade amorosa de mudar o mundo", como diria Paulo Freire.
- A experiência de um documentário é bastante investigativa, como você se preparou para entrar no mundo daquelas pessoas?
SM: Antes de ir comecei a ler alguns livros sobre o tema. Conheci uns assentamentos, mas o mais essencial foi ter mantido uma boa interlocução com dois caras do MST, um jovem e um mais maduro. O mais velho é o Geraldo Fontes, cientista político mexicano que veio pro Brasil na gênese do MST, por intermédio de Stedili, o qual havia conhecido na faculdade, na Cidade do México. Tivemos alguns encontros preciosos onde debatíamos a conjuntura e eu ouvia, tal aprendiz, o que ele me contava; sempre evocando as contradições que eu pudesse encontrar e soprando o véu de fumaça do romantismo.
- Conte um pouco da experiência no acampamento, houve alguma resistência, como foi a receptividade em geral?
SM: Passei uns dias no assentamento, hospedada na casa de S. Samuel e D. Lecy. Fui tratada como gente da família e conheci os vizinhos e pessoas de várias gerações no assentamento. Jogava bola com as meninas no campo, lia Heiddeger no pé da árvore, ia pros "sambas roubados" da folia de reis... até o jogo de búzios eu fiz lá. Uma temporada de descoberta e encantamento. Não houve resistência alguma, pelo contrário, fui muito bem recebida. Eles rezavam por mim.
- O que você considera mais importante nessa experiência?
SM: Meu Deus. Além do convívio com pessoas que passei a amar, aprendi muito no processo de realização do filme e principalmente no que diz respeito às relações e objetivos.
- Você já tinha tido experiências com filmes institucionais e experimentais, quais as diferenças que sentiu em um projeto como o Doc Tv?
SM: Logo de cara participei de uma oficina pra discutir o projeto. A ideia antes restrita à minha cabeça e ao papel, foi debatida antes de voltar novamente para os meus domínios. Ao trabalhar com recursos públicos vc sente na pele a responsabilidade. É bom poder escolher a equipe e pagar pelos serviços. Envolver-se com outras personalidades, se confrontar no processo criativo e etc. É muito bacana a certeza da recepção do filme, afinal, ele será exibido em rede nacional... Você acaba possuindo um poder de longo alcance com a sua voz.
- Você criou o argumento, dirigiu e montou o documentário, qual a importância que você vê em participar efetivamente de todas as fases do filme?
SM: Tem umas cenas do filme, como árvores, chão e nuvens que eu tb filmei. Taí algo que se aproxima dos trabalhos independentes anteriores, essa de artesão. É importante porque a versatilidade te dá uma visão mais ampla do processo, você entende a linguagem que quer falar!
- Com qual das três funções você se identifica mais (diretor, roteirista, montador)?
SM: Amo e me identifico com as três.
- As pessoas costumam colocar em sua apresentação o fato de vir de Vitória da Conquista. Você acha que vir da terra de Gláuber teve influência em sua formação?
SM: Eu vim mesmo de Conquista, mas nasci em Seabra, na Chapada Diamantina. Acho que a influência foi do grupo com o qual me envolvi. Todos estão hoje lidando com arte e engajamento político. Fizemos até um coletivo aqui em Salvador, Kinemadinovo. Do grupo, George Neri, Dió Araújo e Denise Santos estão fazendo documentários pro edital dos 26 territórios... Outra coisa, em Conquista é realizada uma Mostra de Cinema, então uma vez no ano acontecia um evento que aglutinava o pensamento em cinema, embora eu tenha vindo fazer a especialização aqui. Num evento desses de cinema, numa homenagem a Glauber, pude conhecer o Eryk e aí sim Glauber tinha a ver, pois foi por conta do pai que ele foi parar lá. Conversamos muito nessa ocasião e viemos a nos tornar amigos depois. Ele me estimulou a encarar o cinema de frente.
- E os planos para o futuro? Pretende continuar com documentários ou tem interesse em ficção?
SM: Vou fazer os dois, além de TV. Tenho projetos de programa e, no momento, estamos engendrando uma grade bacana na TV Ufba.










































9 opiniões:
Oi! Deixei para ti um selo no meu blog! Passa lá para pegá-lo! Abraço e parabéns!
3 de outubro de 2009 10:08Boa entrevista.
3 de outubro de 2009 13:01Parabéns Amanda! parabéns Sophia! SVieira
Tão novinha e tão consciente. Gostei da entrevista e fiquei curioso, será que chega em Minas?
3 de outubro de 2009 14:42abraços
Parabéns pela iniciativa de escrever sobre filmes que precisam ser notados e vistos.
3 de outubro de 2009 23:29Gostei do texto e da diretora.
Bjokas moça!!!
Pelo que deu pra notar ela é bem Glauber mesmo como você perguntou, Amanda. E isso é um GRANDE elogio. Não sou especialista em cinema, sou apenas um espectador, mas não consigo observar um trabalho hoje no cinema tão Rochiano (se podemos chamar assim rs). Achei ótima a entrevista. A documentarista falou de uma forma bem bacana. E espero que ela tenha uma carreira cheia de sucesso, porque fazer um filme desses não é pra qualquer um.
4 de outubro de 2009 11:34Valeu!!!!!!!!!!!
Muito legal a entrevista, Amanda.
4 de outubro de 2009 20:18Quando estrear na tv, avise-nos para assistirmos!
Boa sorte à Sophia e que a terrinha de Glauber também lhe renda bons frutos!
Bjo!
P.S.: você tem msn?
sophis_21@hotmail.com
4 de outubro de 2009 20:52que legal os comentários!
Obrigada, Daniel, em breve coloco ele aqui.
4 de outubro de 2009 21:21Valeu, Simone.
Robin, o Dov Tv é um projeto nacional, então, quando for para a televisão, acredito que passe no Brasil inteiro, procure mais informações no site do Minc.
Pois é, Rodrigo, gosto de abrir espaço no blog para todos, principalmente para o cinema baiano, afinal se eu não valorizar o que é meu, quem valoriza, né?
É verdade, Renan, ela é uma garota consciente e cheia de ideais, como Gláuber.
Obrigada, Fred, estarei ligada para informar assim que o Doc Tv exibir. O meu msn é ama_aouad@hotmail.com
Sophia, está vendo? Sua entrevista rendeu, méritos seus também. Terça-feira estou lá para conferir seu filme.
Abraços a todos.
Parabéns a entrevistadora pela escolha: tive a grande satisfação de conhecer algo do estilo de trabalho da Diretora de "A visão de dentro" e me deixou um forte sentimento de inquietante doçura.
4 de outubro de 2009 22:05Tal vez por ser filha da Chapada, seu trabalho transmite a linhagem das orquideas: de uma infinita delicadeza visual que contrasta com a férrea textura de sua determinação existencial.
Quem não quizer perder a oportunidade de conhecer o trabalho de alguém que, com certeza, ainda vai dar muito que falar; então terça-feira tem cita marcada no Espaço Unibanco.
...depois não venham me dizer que não avisei!
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