01/04/2010

Chico Xavier - Tem um filme, amigo, aqui

Ângelo Antônio é Chico Xavier Daniel Filho é um homem inteligente, isso se comprova após assistir ao seu novo longa que estreia nessa sexta-feira em todo o país. Chico Xavier é um filme de um diretor/produtor, é verdade, e a maioria dos cinéfilos tende a rejeitar isso preferindo o diretor/autor tão valorizado pela Cahiers du Cinéma. Confesso que, mesmo eu, aprecio mais o artesão em busca de imagens reflexivas, mas como toda brasileira cresci na frente da televisão e sei valorizar a arte do entretenimento que esse diretor leva as telas de forma competente e envolvente. O que ele quer é lotar as salas de cinema e divertir o público. Ponto para ele.

Em Chico Xavier já começa esse jogo de forma inteligente. Primeiro, sabe que fazer uma biografia é sempre complicado, delicado até, então, expõe logo isso nos letreiros iniciais: "A vida de um homem não cabe em um filme." Escolhas foram feitas para contar a história do maior médium espírita do país e essas escolhas ficam claras nas primeiras imagens. Sendo um homem de televisão, criticado por isso ao se aventurar no cinema, Daniel Filho utiliza-se do programa televisivo Pinga Fogo para costurar sua história. Tudo fica justificável, a linguagem, o ritmo frenético, os planos. E o mais interessante é a forma como ele joga com isso mostrando os bastidores do programa, que servem também para construir o clima de incredulidade de um segmento da sociedade em relação ao fenômeno espírita. Claro que o filme não se resume a isso, e tem alguns momentos criativos na direção, principalmente quando Chico é criança. Interessante também que, mesmo tendo o recurso do programa para recortes, as duas passagens de tempo em que mudam os atores que interpretam o protagonista têm passagens próprias com junção de cenas.

Nelson Xavier e Christiane TorloniO roteiro de Marcos Bernstein é bom, nada de novo, mas bem construído e fecha de forma bastante interessante. Como falei, foram feitos recortes. Roteirista e diretor optaram por focar na aceitação da mediunidade de Chico, desde sua aparição na infância até um fato que inquestionavelmente a torna real. Paralelo a isso, temos a história de Glória e Orlando que perderam o filho de forma trágica. A vida do casal vai se cruzar com a do médium, pois Orlando é o diretor do programa Pinga Fogo. Seu personagem é a voz de incredulidade completa. Talvez, a voz do próprio Daniel, que como o personagem, se diz ateu.

De modo geral, as interpretações estão ótimas. Os três atores que vivem Chico estão muito bem. Nelson Xavier está praticamente a encarnação do médium, Ângelo Antônio também defende o personagem de forma bastante bonita na fase jovem, aliás, a maquiagem que rejuvenesceu o ator está impressionante. Já o garoto Matheus Costa é convincente em sua dor, medo e ingenuidade. Agora a interpretação mais esperada para mim era mesmo Christiane Torloni. A atriz teve a coragem de emprestar sua dor pessoal para uma personagem que, assim como ela, perdeu um filho. Mesmo que não soubéssemos desses detalhes, o choro e as expressões daquela mulher são comoventes, mas confesso que esperava chorar mais com ela.

A direção de arte está impecável, assim como a pós-produção. O ponto fraco está na trilha sonora, o que chega a ser inusitado, já que música emotiva é uma das características do melodrama onde Daniel Filho tem tanta experiência. 


Letícia Sabatella e Matheus CostaAcima de tudo, Chico Xavier é um filme contagiante pelo carisma e bondade do seu protagonista. Assim como os funcionários do Pinga Fogo, não há como não se envolver com a entrega de Chico à causa maior da caridade. Seu sofrimento na infância, que foi atenuado no filme, a firmeza como Emmanuel exigia dele, também atenuada no filme, o fenômeno de trabalho sem nunca receber um centavo por isso. Prestando atenção no que ele diz, as mensagens que falou no programa entram em nossa alma fazendo com que saiamos do cinema pensativos, mas leves. Tendo a certeza de que existe algo além desse mundo aparentemente sem sentido. Ponto também para os créditos com as cenas reais do programa.


Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA na linha de pesquisa em Análise de Teleficção, é formada em Publicidade e Propaganda, roteirista e especialista em Cinema pela UCSal. Fez ainda quatro cursos de crítica cinematográfica ministrados por Pablo Villaça, Francis Vogner, Cláudio Marques e João Carlos Sampaio. Membro da Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos.

8 opiniões:

Fred Burle disse...

Eu não tantos motivos para o filme ser exaltado dessa forma.
Tem sim, pontos positivos, como a direção de arte e o elenco no geral (principalmente Nelson Xavier), mas a montagem e a direção mecânicas, a trilha surpreendentemente fria e a péssima sincronia das dublagens fazem do filme nada além de mediano.
Chico Xavier merecia muito mais e seu público merecia mais emoção.
É regular, mas podia ser excelente.

1 de abril de 2010 13:31
Fernando Império disse...

É um filme que quero ver. Interessante seu texto porque tece elogios claros a Daniel FIlho e ao filme como um todo... fiquei curioso pra ver... Assim que o fizer, volto aqui e deixo minhas impressões.

Abraços

1 de abril de 2010 13:42
Amanda Aouad disse...

Fred, confesso que não percebi essa falta de sincronia na dublagem que você fala... A trilha é fria, como eu também comentei, mas acho que no geral o filme me convenceu. Principalmente pelo Chico e suas mensagens, é verdade, mas foi um resultado maravilhoso se comparado ao desastre que foi Bezerra de Menezes. Acho que a minha expectativa estava nisso, se fosse um filme bom de se ver eu já estava feliz.

Fernando, como eu falei, eu gostei do filme, diante de tudo que ele poderia ser. Não dá para exigir de Daniel Filho algo que ele não irá conseguir nunca, que é mudar sua visão de direção. Ele é um homem de televisão, ajudou a construir o padrão que conhecemos hoje. Para ele direção é isso: corte para lá e para cá e ponto. É coordenar uma produção eficiente. Mas, a história foi bem contada. Eu fiquei feliz.

1 de abril de 2010 17:01
Grace Gomes disse...

Achei seu comentário um convite para ir ao cinema e ver o filme. Não opino sobre técnicas de cinema. Falo mais como público que gosta de se envolver com as emoções dos filmes. Se isso que você sentiu ao sair do cinema for real para a maior parte das pessoas, acho que valeu o filme: ouvir, se deixar envolver e refletir sobre as palavras, exemplos e trabalho de Chico Xavier, independente da prática ou não de uma religião. Valeu!

1 de abril de 2010 19:36
Amanda Aouad disse...

Um convite sempre será, Grace, acho que todos os filmes devem ser vistos, por mais que eu não goste. Sempre aprendemos algo de bom. Lembro bem de Pablo Villaça nos dizendo em um curso: o crítico nunca deve dizer vá ou não vá ao cinema, porque cada filme pode ter um significado diferente para uma pessoa.
No caso de Chico, é bem isso, mais do que filme, a mensagem do médium é que vale, ha coisas que ele fala que tocam o nosso coração. Fora todo o envolvimento pessoal com a mensagem do Cristo, a psicografia, etc... Para mim foi uma grande experiência.

bjs

2 de abril de 2010 10:31
Amanda Aouad disse...

Sumiu um comentário de Patrícia Sales, não sei se foi algum problema no google... Porque se ela tivesse deletado apareceria a mensagem, "comentário deletado pelo autor"... Estranho, se alguém souber o que está acontecendo, me avise.

2 de abril de 2010 10:34
Joana Santana disse...

"Prestando atenção no que ele diz, as mensagens que falou no programa entram em nossa alma fazendo com que saiamos do cinema pensativos, mas leves." Isso, acho que quem não gostou do filme não prestou a atenção nisso. Vi na pré-estreia aqui de Paulínia e amei o filme. Cada vez mais apaixonada por Chico.

2 de abril de 2010 11:06
Anônimo disse...

fime que deixa as pessoas que não aceitam o espiritismo remexido

9 de abril de 2010 10:30

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