31 de jul de 2011

O Homem que não dormia

O Homem que não dormia - Luis PaulinoUma catarse emotiva que o atormentava há quarenta anos, influenciado por Jung, Freud, Kardec e tantas outras leituras, assim descreve Edgard Navarro o seu filme O Homem Que Não Dormia. É isso que vemos em tela. Uma catarse, como tal, não tem começo, meio, nem fim, é uma propulsão de sensações, emoções que vibram em tela em partes. Está tudo lá, e tem uma beleza poética na essência, só precisava de um roteiro melhor trabalhado para ser acessível ao grande público.

Em uma cidadezinha na Chapada Diamantina, cinco pessoas têm repetidas vezes um mesmo sonho estranho, um homem tenta passar uma mensagem entre raios e trovões. Essas cinco pessoas são atormentadas pelas imagens e por suas vidas sem sentido. Vado, um rapaz epiléptico, vivido por Fábio Vidal, que apanha do pai ao ponto de ser preso em uma coleira. Madalena, uma espécie de Dona Flor, vivida por Mariana Freire que é mal falada na cidade. D. Brígida, a esposa do coronel local, vivida por Evelin Buccheger que está grávida de seu amante. Práfrente Brasil, vivido por Ramon Vane, foi vítima de tortura durante a ditadura e ficou completamente louco. E padre Lucas, um sacerdote sem fé, vivido por Bertrand Duarte, que começa a perceber que todos estão no mesmo barco. Todos, em boas interpretações, principalmente Ramon Vane e Bertrand Duarte que prova mais uma vez que é um dos grandes atores da Bahia.

O Homem que não dormiaA história imaginada por Edgard Navarro é rica em assunto e sentimento, principalmente na ligação do passado com o presente, em sua trajetória de resgate e libertação, mas poderia ser melhor trabalhada. O roteiro se torna confuso ao tentar construir o clima de uma cidade interiorana e tornar a história mais um causo de fogueira. O problema é que, ao mesmo tempo em que tenta construir um mistério em torno de seus personagens, Navarro é extremamente didático em alguns momentos, construindo cenas desnecessárias e apelando para imagens aparentemente com o intuito de chocar.

O Homem que não dormia - Bertrand DuarteA idéia dos causos ao redor da fogueira é bastante feliz, típico de cidade interiorana, mas fica completamente solta na história. Para coroar sua falta de utilidade, após falar de mula-sem-cabeça, saci pererê e lobisomem, o contador anuncia que irá no dia seguinte contar a história do Barão atormentado que não dormia. Para quê? Um aviso ao público da história que seria contada no filme? Da mesma forma como aparecem os quatro jovens namorando no cemitério. A cena é quase uma foto-legenda complementar, para dizer que o Barão, seu tesouro e sua maldição viraram lenda local. Uns tem medo, outros desdenham. Parece que Navarro não acredita em sua capacidade de construir sua história apenas com o dia a dia dos cinco personagens e os seguidos flashbacks. Retoma a didática ainda na cena em que Madalena conta a mãe de santo o que descobriu sobre o tesouro, a mulher faz uma explicação detalhada da conclusão da história. É quase um pára-para-te-explicar-o-filme. Totalmente desnecessário.

O Homem que não dormia - Bertrand DuarteDa mesma forma que é desnecessária algumas exposições de pessoas nuas. Não que haja problema em expor o nu frontal em si, mas quando faz um sentido na história. A cena de Madalena por exemplo, é autêntica, ela acordou com seus dois amantes, claro que estão nus, se acabaram de ter relações e só veste a parte de cima da roupa para aparecer na janela. Mas, precisava mesmo mostrar D. Brígida se lavando com tantos detalhes? E a cena da masturbação dupla, qual o sentido daquilo dentro da história, se eram personagens tão secundários? Também não precisava tanto xixi explícito. Na verdade, a cena que acredito que caberia um nu total seria a da revelação do padre, uma espécie de São Francisco de Assis revisitado, mas aqui, Navarro preferiu deixá-lo de cueca.

Uma coisa interessante é a reconstituição da vila e seus moradores. Cabe a eles discutir a repercussão da vida dos personagens. Isso é autêntico em uma espécie de função do Coro no antigo teatro Grego. Uma pausa explicativa mais flúida e condizente com a narrativa que nos dá uma sensação de núcleos de personagens, mas que funciona para ligar a história. Repito que essa função poderia ser também do grupo ao redor da fogueira, mas este fica esquecido em muitos momentos, tornando as ações desencontradas para o bom andamento da história. Essa necessidade de interferência acaba trazendo para a cena mais bonita do filme, um personagem desnecessário como o turista americano que explica o que o padre Lucas está sentindo. A intenção da piada do Pentecostes e do cartão é condizente com o resto do filme que intercala o tempo inteiro dor e humor. Mas, a meu ver ficou over.

O Homem que não dormia - Edgard Navarro e Luis PaulinoPor outro lado, o paralelo entre o Peregrino, vivido por Luis Paulino, com as cenas do Barão são bastante felizes, uma cena em que ele entra na casa e o Barão está sentado na cadeira por exemplo, constrói um efeito de aproximação imenso, deixando clara a intenção daqueles dois personagens. Aliás, o fato de serem dois atores foi um dos acertos de Navarro, tornando a filosofia espírita mais próxima do real. E o próprio diretor surpreende em uma atuação emocionante. A fotografia é bem construída, apesar de não ter muitas novidades. E os efeitos especiais perdem muito com o pouco orçamento do filme, a exemplo da cena da árvore, que precisa parar a imagem para animar as folhas caindo. Ainda assim, é eficiente. Ao contrário do desenho de som, bastante infeliz, que estronda e incomoda os nossos ouvidos em muitos momentos, além da referência estética ao cinema mudo, que se torna estranho naquela linguagem.

O Homem que não dormia

É possível notar também, em O Homem que não dormia, ecos de SuperOutro, filme mais famoso do diretor, protagonizado por Bertrand Duarte, em discursos exarcebados de ideais e em cenas explícitas, como quando o padre Lucas pula em uma fonte, da mesma forma que o mendigo fez no filme da década de oitenta. Sem falar, claro, da repetição do grito final "abaixo a gravidade" que antecede o vôo e nos traz o "acorda humanidade" do início do filme SuperOutro, que ficou gravado na memória dos baianos. Esse clima, essa sensação de por para fora as angústias que lhe vem n´alma é a beleza maior da obra de Edgard Navarro que precisava apenas de algum aparo nas arestas para ficar mais próximo do público.

O Homem que não dormiaO Homem Que Não Dormia é uma obra de um diretor. Um projeto pessoal, uma expressão interna de angústias e desassossegos. É autêntica, bela e intensa em muitos momentos, se nos permitirmos embarcar junto com Edgard Navarro em seu sonho. Mas, não é um filme fácil, nem para todos. Muitos saíram irritados do Teatro Castro Alves, principalmente aqueles que não conheciam, nem compreendiam a trajetória do diretor. Isso, ao analisar a obra em si, também conta como ponto negativo, já que o cinema é para ser visto e se comunicar com o público. Sinto falta dessa visão no cinema baiano. Senão, como explicou Bertolucci em seu depoimento ao Festival vira um "miúra". É preciso encontrar o caminho do meio. E aqui faltou pouco, apenas um ajuste no roteiro e uma necessidade menor de chocar. Ainda assim, O Homem Que Não Dormia possui um valor artístico que merece ser reconhecido. E que Navarro consiga, finalmente, dormir em paz.

Filme assistido no Festival Cine Futuro, julho de 2011.



O Homem Que Não Dormia (O Homem Que Não Dormia: 2011 / Brasil)
Direção: Edgard Navarro
Roteiro: Edgard Navarro
Com: Edgard Navarro, Bertrand Duarte, Fábio Vidal, Mariana Freire, Evelin Buccheger, Ramon Vane, Fernando Neves.
Duração: 100 min.


Amanda Aouad

Amanda Aouad é Mestre em Comunicação e Cultura Contemporânea pela UFBA, especialista em Cinema pela UCSal e roteirista de Ponto de Interrogação, Cidade das Águas e Vira-latas. É ainda professora de audiovisual, tendo experiência como RTVC e assistente de direção. Membro da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos e da Liga dos Blogues Cinematográficos.

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