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Café com Canela

Café com Canela - filme brasileiro

Durante o debate após o filme baiano no Festival de Brasília, uma pessoa na plateia perguntou se café com canela existia mesmo ou era coisa do filme. Isso é uma demonstração do quanto a obra da dupla Ary Rosa e Glenda Nicário tem a capacidade de ser tão particularmente baiano ao mesmo tempo em que consegue dialogar com todas as plateias por trazer temas universais como amor, morte e encontros.

Café com canela tem cheiro e gosto de aconchego, de casa de vó, de reconhecimento. E foi isso que a dupla de cineastas trouxe para as telas com um retrato do Recôncavo Baiano pulsante e emocionante em diversos aspectos. Em especial, Cachoeira, essa cidade tão peculiar de nossa história, onde movimentos libertários já nos inspiraram desde o tempo de Maria Quitéria.

Café com Canela - filme brasileiroCom forte influência das raízes africanas, Cachoeira se vê na tela com quase totalidade do elenco de atores negros, assim como a maioria da equipe. Trazem nas referências os sons dos atabaques e as águas de Oxum. Trazem também muito samba de roda e o reggae de Edson Gomes. Tudo isso para falar de encontros e desencontros da vida e da morte.

Duas mulheres fortes e frágeis ao mesmo tempo, de diferentes gerações, protagonizam essa jornada. Margarida, que se entregou à dor após uma tragédia, e Violeta que superou sua tragédia pessoal e hoje celebra a vida nos pequenos prazeres cotidianos. Outras duas mulheres ainda merecem destaque, como a engraçada Cida, amiga de Violeta e a avó desta que, apesar de doente em cima de uma cama, tem duas cenas extremamente fortes.

Nesse universo feminino sob a benção de Oxum, os homens também tem seu espaço, como o companheiro de Violeta ou o casal vizinho. Em especial, o personagem vivido por Babu Santana, médico local que também tem que lidar com uma grande perda.

E como o cinema é veículo, é também linguagem e metalinguagem dessa história, desde o recurso inicial da câmera caseira, passando pela referência da sala de cinema até uma conversa, talvez desnecessária, sobre o que é o cinema para aquelas personagens. Da maneira como está ali inserida, parece mais uma voz dos próprios cineastas que das personagens, mas não deixa de ser simbólica.

Café com Canela - filme brasileiroPorque de fato, Café com Canela tecnicamente oscila. Tem momentos sublimes, como uma cena de embate ou um momento de morte. É criativo em olhares, trazendo inclusive uma câmera subjetiva inusitada. Mas também traz momentos que escorregam, como o excesso da montagem no início ou algumas cenas esquemáticas como a que dois casais comem um prato de escondidinho no bar.

Porém, esses tropeços e imperfeições acabam sendo pequenos diante do conjunto da obra. Diante, principalmente da emoção que provocam não apenas em baianos que se reconhecem ali, não apenas para negros que se sentem representados, mas por seres humanos que sentem, sentiram ou sentirão a dor de uma perda e a alegria de celebrar a vida, que, apesar de todas as imperfeições, Gonzaguinha já dizia que "é bonita, é bonita e é bonita".

Assim é Café com Canela. Vida longa ao cinema do recôncavo com toda a sua perfeita imperfeição. E que Glenda Nicário e Ary Rosa, que já anunciaram estar produzindo o segundo longa, continuem nos emocionando.


Filme visto no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Café com Canela (Café com Canela, 2017 / Brasil)
Direção: Glenda Nicário e Ary Rosa
Roteiro: Ary Rosa
Com: Valdineia Soriano, Aline Bruno, Babu Santana, Aldri Anunciação, Arlete Dias, Guilherme Silva, António Fábio, Dona Dalva Damiana de Freitas, Michelle Mattiuzzi
Duração: 102 min.

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