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Mestres do Universo
Mestres do Universo
Quando penso em Mestres do Universo, de 1987, a primeira sensação que vem à mente é a de um projeto que acreditou demais em sua própria mitologia e de menos no cinema enquanto arte narrativa. Não me entenda mal, não há nada de errado em transformar brinquedos e desenhos em filmes, mas o que Gary Goddard tentou aqui falha em quase todas as frentes porque se recusou a encontrar o que torna Mestres do Universo realmente interessante.
A produção nasceu com um peso enorme: adaptar um fenômeno dos anos 1980, a linha de brinquedos He-Man e sua série animada, que já tinha capturado a imaginação de milhões de crianças. Em vez de aprofundar a mitologia de Eternia ou explorar o conflito épico entre o bem e o mal com alguma gravidade, o roteiro sacrifica a maior parte de sua própria lógica em prol de cenas desconexas que tropeçam entre a fantasia cartunesca e um humor que nunca se compromete em ser realmente engraçado.
Dolph Lundgren, escalado como He-Man, tem inegável presença física, mas sua atuação raramente ultrapassa a barreira do estoicismo inexpressivo. Ele parece estar sempre à procura de um tom que o roteiro parece não oferecer. Já Frank Langella, no papel de Esqueleto, rouba com inteligência cada cena em que aparece: seu vilão é exagerado, teatral, exatamente o tipo de desempenho que poderia ter elevado o material se o restante da produção estivesse disposto a abraçar esse estilo.
Se há um momento que sintetiza o que há de melhor e pior nesse filme, é a batalha final no Castelo de Grayskull. A sequência tem fôlego, uma coreografia apaixonada e tenta canalizar a grandiosidade que merece o clímax de uma narrativa de fantasia. Contudo, ela é cercada por diálogos ansiosos e cenas de ação que oscilam entre o satisfatório e o envolto em efeitos que, até para a época, já soavam datados.
O maior problema de Mestres do Universo não é simplesmente ser ruim, muitos filmes o são e ainda assim se tornam cult, mas sim ser um produto que nunca decide se quer ser sério ou não. Quando a história se desenrola em Eternia, há lampejos de um épico de espada e magia; quando se move para a Terra, tudo se transforma num pastiche de comédia adolescente pobremente amarrada ao restante da narrativa.
A direção de Goddard padece dessa indecisão. Em vez de consolidar uma visão coerente, ele parece jogar elementos no ar, esperando que o público monte a conexão por conta própria. E os efeitos visuais refletem isso. Por vezes, há beleza abstrata, em outras, simplesmente parecem deslocados. Os personagens humanos, que deveriam servir de ponte entre a fantasia e a realidade do espectador, são tão pouco explorados que mais atrapalham do que ajudam a trama.
Ainda assim, há mérito em Mestres do Universo. A audácia de tentar transpor um universo tão único para os cinemas merece respeito. A performance de Langella é um lembrete de como um ator pode transformar até uma máscara caricata em algo memorável. E, mesmo com tantos defeitos, parte do encanto do filme hoje vem justamente dessa imperfeição: ele se tornou um artefato de uma era, um pedaço estranho e fascinante de cinema pop que é mais lembrado pela nostalgia e pela ambição do que pela execução.
Há cenas, como a chegada dos Eternianos à Terra, que, pela pura energia e coragem de ousar ser diferente, conseguem ser mais interessantes que muitos blockbusters de fantasia posteriores. O filme também serve como um estudo sobre as armadilhas de adaptar propriedade comercial em cinema sem olhar antes para o coração dramático da história que se quer contar.
Em resumo, Mestres do Universo é ao mesmo tempo frustrante e estranhamente cativante. Ele se recusa a ser coerente, mas em seu caos encontra um lugar no panteão de filmes que continuam a ser revisitados e discutidos quase quatro décadas depois. Isso, por si só, já diz algo sobre sua dimensão cultural: não como um grande filme, mas como um filme que continua a provocar reflexão sobre o que fazemos quando levamos a sério apenas parte do que importa num universo ficcional.
Mestres do Universo (Masters of the Universe, 1987 / Estados Unidos)
Direção: Gary Goddard
Roteiro: David Odell
Com: Dolph Lundgren, Frank Langella, Courteney Cox, Billy Barty, Meg Foster
Duração: 105 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Mestres do Universo
2026-01-30T08:30:00-03:00
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