Desde sua estreia no catálogo do Prime Video, A Guerra dos Mundos (2025) se tornou caso de estudo sobre como não adaptar um clássico da ficção científica. A proposta inicial de transpor o romance de H.G. Wells para um formato em que a história se desenrola por telas de computadores, celulares e feeds de vídeo tinha potencial narrativo legítimo. Filmes que exploraram esse tipo de estética antes, como Amizade Desfeita (2014) ou Buscando... (2018), conseguiram tensionar relações humanas e perigo iminente a partir da superfície plana de telas digitais. Mas aqui a inovação se transforma em artifício vazio e, pior, um obstáculo à própria narrativa.
Não é que o filme parece uma apresentação de slides de GIFs mal renderizados, nem simplesmente que o roteiro é superficial. Esses elementos se combinam para anular qualquer possibilidade de empatia pelo drama em jogo. O protagonista, Will Radford, vivido por Ice Cube, é um analista de ameaças governamentais que nos é apresentado quase como um avatar do espectador conectado: ele observa o mundo desmoronar através de telas, tenta decifrar códigos, rastrear feeds de vigilância e contatar entes queridos por videoconferência enquanto máquinas alienígenas tomam cidades inteiras. Essa premissa, que poderia ser um comentário agudo sobre a maneira como hoje assistimos à tragédia global de nossas poltronas, se reduz a um mar de diálogos pobres, explicações tecnológicas apressadas e personagens com funções que parecem feitos sob medida para a narrativa, não pessoas completas.
A direção de Rich Lee, cujo histórico na direção de videoclipes talvez explique a fluidez técnica ocasional, nunca consegue estabelecer ritmo dramático. Ao contrário, há momentos em que a câmera parece perdida entre um close do rosto de Ice Cube e o reflexo verde-azulado de fundos digitais claramente gerados na pós-produção. A escolha de contar praticamente tudo através de interfaces pode ter sido motivada por uma intenção de modernizar a obra, mas essa modernização vira um molde apertado demais: ao longo de 89 minutos, raramente sentimos a brutalidade da invasão alienígena, nem o desespero palpável que o gênero exige, porque quase nada acontece “no mundo real”.
O roteiro de Kenneth Golde e Marc Hyman naufraga em sua tentativa de mesclar suspense tradicional com um comentário tecnológico que nunca se materializa com clareza. Em vez de um enredo consistente, temos sequências desconexas onde personagens trocam jargões sobre vigilância, dados pessoais e hackers enquanto um ataque intergaláctico associado a um apagão de dados toma o planeta. A ideia de que alienígenas roubariam a informação humana é interessante como metáfora, mas no filme isso só parece pretexto para inserir referências a marcas tecnológicas e aparições de drones de entrega. O que deveria ser uma crítica temática se torna, ironicamente, um grande outdoor corporativo.
Do ponto de vista de atuação, Ice Cube enfrenta um terreno inóspito. Sua presença carismática em outras obras é inegável, mas aqui ele está frequentemente confinado a uma cadeira, repetindo variações de interjeições enquanto o quadro ao seu redor pulsa com janelas de software. Isso não é tão somente uma limitação física, é a impressão de que o personagem nunca ganha espaço narrativo próprio. Eva Longoria, Clark Gregg e outros membros do elenco se movem em torno dele como ecos, sem um arco emocional que convença. Como resultado, não sentimos a urgência dos conflitos familiares nem a gravidade do impacto alienígena, e isso é um golpe fatal para uma obra que pretende combinar ação com drama.
Existem lampejos de algo divertido, mas não no sentido que a obra pretende. Em algumas passagens, a confusão de lógica narrativa ou um corte abrupto entre feeds diferentes cria momentos involuntariamente cômicos. Mas o humor que emerge é o tipo que não sustenta um filme, apenas destaca seus problemas estruturais. Se A Guerra dos Mundos de 2025 tivesse consciência de sua própria estranheza e optasse por abraçar isso, talvez fosse um cult de nicho. Em vez disso, o filme teima em se vender como uma adaptação séria e moderna de um clássico universal, e é justamente nessa pretensão que ele se perde.
É compreensível que adaptações assumam riscos, explorar novas estéticas e tentar trazer temas relevantes aos nossos tempos parece um gesto legítimo. Mas, cinema exige presença, tensão concreta e uma construção de personagens que transcenda efeitos visuais. Quando sobra apenas conceito sem substância, o espectador fica, no máximo, olhando para uma tela vazia. Acredito que tenha sido por conta desses pontos que A Guerra dos Mundos (2025) tenha entrado no radar do Framboesa de Ouro 2026, incluindo indicações em categorias como Pior Filme, Pior Diretor, Pior Roteiro e Pior Ator.
Se o filme ainda tem um valor cultural hoje é mais como advertência: ele nos lembra que a tecnologia pode ser uma ferramenta de cinema, mas quando ela se torna o foco narrativo, aquilo que faz um público se importar pode desaparecer. E aí, não importa mais o quanto se reinvente um clássico, se as bases de dramatização, empatia e ritmo não existirem de verdade, aquele mundo alienígena jamais vai parecer tão aterrorizante quanto deveria. No máximo, alguém jogando videogame.
A Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2025 / Estados Unidos)
Direção: Rich Lee
Roteiro: Kenneth Golde, Marc Hyman
Duração: 89 min.




