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Aquário
Aquário
Quando a câmera de Aquário se aproxima de Mia, ela não olha para nós: nos atinge. Não é um filme sobre adolescentes ficcionais idealizados; é um estudo quase documental da vida no limite da sobrevivência emocional e social, capturado pela diretora Andrea Arnold com uma intensidade que ainda ecoa na memória de quem assiste. Em muitos momentos, o título funciona menos como cenário e mais como metáfora do mundo claustrofóbico em que Mia existe, nadando sem sossego numa redoma invisível que parece pronta a trincar a qualquer segundo.
Katie Jarvis, em sua estreia impressionante, é um fenômeno porque ela não “interpreta” Mia no sentido tradicional: ela é Mia. Sua presença em cena é quase física, visceral, do tipo que faz o espectador sentir o peso de cada olhar torto, cada súbita explosão de fúria e cada silêncio tenso depois de uma discussão. É uma performance que, mesmo quando irrita, nunca se esconde de sua contradição humana. E é justamente isso que torna o filme tão difícil de digerir.
Arnold opta por um realismo sem filtros, lembrando a austeridade emocional de diretores como Ken Loach ou Mike Leigh, e filma sem concessões a conforto narrativo ou fácil empatia. A dança que Mia tanto pratica no espaço reduzido de uma sala vazia se torna um contraponto brutal às suas interações sociais: ritmo e movimento em meio a um ambiente que sufoca. Os “aquários” que aparecem em cena não são apenas objetos: são janelas e barreiras. Estar diante deles é lembrar que, mesmo observando, estamos isolados dentro de nossos próprios limites, assim como Mia.
Michael Fassbender, no papel de Connor, imprime uma ambiguidade requerida por uma obra que recusa simples respostas. Seu charme inicial se desfaz pouco a pouco na textura áspera das relações humanas retratadas, e sua presença dá ao filme uma tensão emocional que vai além do choque. Não se trata apenas de um homem entrando na vida de uma família disfuncional, mas da materialização de expectativas frustradas e perigos disfarçados de esperança.
O realismo de Aquário não busca romantizar a vida de quem vive à margem; ele expõe um quadro cru de escolhas, consequências e sobrevivência. Há momentos que exemplificam isso como um golpe direto: a tentativa de libertar um cavalo acorrentado, por exemplo, não é apenas um ato físico no roteiro, é uma metáfora concreta da busca de Mia por escape, por liberdade, por um sentido que a realidade insiste em negar.
Mas ao investir tão profundamente no realismo brutal, o filme também exige do espectador uma coragem emocional que pode ser desconfortável. A narrativa não sorri, não se curva à esperança fácil. O ritmo é deliberado, às vezes sufocante, porque o cinema de Arnold parece dizer que a vida real também é assim: sem cortes limpos, sem soluções rápidas, sem redenção garantida.
Esse é também o mérito de Aquário. Não tenta ensinar lições moralistas, nem embalar sua protagonista em sentimentalismos fáceis. A dureza do filme não é gratuita. Está firmemente plantada no cerne da experiência humana que ele busca revelar. E é talvez por isso que, mais de uma década depois, continua a ser citado como um dos retratos mais poderosos e perturbadores da adolescência e da vida familiar marginal da cinematografia britânica recente.
Aquário (Fish Tank, 2009 / Reino Unido)
Direção: Andrea Arnold
Roteiro: Andrea Arnold
Com: Katie Jarvis, Michael Fassbender, Kierston Wareing, Harry Treadaway, Charlotte Collins
Duração: 124 min.
Ari Cabral
Bacharel em Publicidade e Propaganda, profissional desde 2000, especialista em tratamento de imagem e direção de arte. Com experiência também em redes sociais, edição de vídeo e animação, fez ainda um curso de crítica cinematográfica ministrado por Pablo Villaça. Cinéfilo, aprendeu a ser notívago assistindo TV de madrugada, o único espaço para filmes legendados na TV aberta.
Aquário
2026-02-18T08:30:00-03:00
Ari Cabral
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