Quando penso em Conduta de Risco a primeira coisa que me vem à mente é que este não é um filme preocupado em entreter pela excitação imediata. Ele quer algo mais difícil: fazer o espectador pensar sobre culpa, moral e o preço de permanecer neutro num mundo de interesses implacáveis. A obra de Tony Gilroy se estabelece como um thriller, mas um que se move com a gravidade de um drama psicológico e se recusa a entregar ao público o conforto de qualquer resposta simplista.
O protagonista, Michael Clayton, interpretado por George Clooney, é um homem que já deveria ter atingido algum tipo de objetivo em sua vida. Ele é um “consertador”, contratado para apagar incêndios, retomar crises antes que virem escândalos, dentro de uma grande firma de advocacia em Nova York. E Clooney, acostumado ao glamour de papéis mais luminosos, aqui entrega algo mais soturno: um homem cansado, esmaecido, cheio de contradições silenciosas. Sua performance é significativa não por explosões dramáticas, mas pela economia do gesto e do olhar, como quando confronta seu próprio reflexo em momentos de crise.
A direção de Tony Gilroy, estreando atrás das câmeras, demonstra uma confiança que se percebe na maneira como a câmera enquadra o mundo. Gilroy e o diretor de fotografia constroem um ambiente de luz fria e sombras constantes que sublinha o clima emocional da trama, quase nos lembrando de que este não é um filme feito para escapar da realidade. A fotografia frequentemente escura reflete o estado interno de seus personagens: sem brilho, cheio de interrogações e cinza.
No centro da narrativa está um dilema que vai além de simples escolhas profissionais. Quando o advogado Arthur Edens enfraquece mental e emocionalmente durante um caso de grande repercussão, defendendo interesses que claramente colocam vidas em risco, ele lança uma pedra no lago estável da rotina de Clayton. A partir desse momento, vemos uma investigação que é tanto externa quanto interna. É como se, ao correr atrás da verdade, Michael também fosse confrontando suas prioridades e valores.
Entre os coadjuvantes, Tom Wilkinson como Arthur Edens entrega um desempenho visceral, um homem arrastado por suas convicções e culpa, oferecendo ao público um contraponto dramático a Clayton. Enquanto isso, Tilda Swinton orquestra a presença corporativa que parece imune às consequências humanas de decisões impessoais. Sua interpretação é sutil, eficaz na maneira como equilibra autoridade e fragilidade.
O plano-sequência de mais de dois minutos que mostra um assassinato é um dos momentos mais memoráveis do filme. Ele não só demonstra a segurança narrativa de Gilroy, mas também funciona como uma metáfora fria sobre como a vida pode ser interrompida sem aviso, um respiro visual e narrativo que traduz a impotência humana diante de decisões econômicas maiores do que qualquer indivíduo.
No fim, Conduta de Risco é um filme que exige atenção total. Ele não simplifica conflitos morais; ele os deixa pulsando na mente depois que os créditos terminam. É um thriller que cresce no espectador não por adrenalina, mas por reflexão. E aqui reside sua força e, também, seu maior desafio.
Conduta de Risco (Michael Clayton, 2007 / Estados Unidos)
Direção: Tony Gilroy
Roteiro: Tony Gilroy
Com: George Clooney, Tilda Swinton, Tom Wilkinson
Duração: 119 min.




